sábado, 19 de janeiro de 2008

O tímpano e a pupila

Num dos pratos o mar, no outro um rio, agora
que o tempo se desossa,
que as pedras
que piso se me enterram na memória e os caminhos
se me aguçam na alma como lâminas, o pão
molhado nas feridas,
o pão
ele próprio já também uma ferida, agora

que o tempo, que já tanto
compararam a um rio, mais
não é do que uma leve exsudação nos muros,
nas mãos, agora

que o céu se encrespa e que pedaços
de mundo arremessados
com toda a força aos olhos revolteiam
na treva antes de se extinguirem,

mais magro do que a neve
caminho, a alma aberta como uma ferida,
ao longo da memória, onde se fundem
o tímpano e a pupila.


Luís Miguel Nava
Vulcão I

Encostamo-nos à nossa casa, pai. Detivemo-nos nas rajadas de sol ambíguas que se aglomeraram na tarde, falamos sobre o futuro e o passado. Eu vi um barco que tu não viste a perpassar, invisível, o tempo. Eu vi os sorrisos dos que partem para sempre. Houve um marinheiro inefável que me acenou. Percebi como estou preso a ti, esta necessidade de regressar sempre a casa, de te dizer, com as lágrimas a cair para dentro

-Olá pai, cheguei

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