terça-feira, 27 de maio de 2008

Daniel Blaufucks, motel

sustenho a memória do teu corpo e aguento toda a violência inerente - amar parece um exercício bélico
A violência representa, em qualquer circunstância, uma regressão no fundamento da nossa existência.
Este filme chocou-me pelo relembrar da capacidade malévola do ser humano.
Não consegui ver seguido. Chocou-me uma violência tão crua, tão desleal.

sábado, 17 de maio de 2008

(Milão - a recordação e a consequente saudade)

Chego a casa. Subo as escadas substancialmente. O cansaço das pernas ressoa no barulho que prolifera pelo enorme pé direito. A porta está entreaberta. Reconheço a intensidade de luz que emerge. Entro no quarto. Constato que está desarrumado. Discos como diz o meu pai no chão, cama por fazer, roupa suja no chão, o computador ligado e o programa de gestão de música a brotar um músico qualquer que tem o dom de tocar piano. Fico estático. Apetece-me dançar suavemente e sozinho mas tenho vergonha de mim mesmo. Fico contraído. Reparo novamente no quarto. Não há nada que me exalte. Releio-o um poema pessoal cravado na parede. Contemplo o vermelho do cenário. Olho para um livro escondido na prateleira da secretária. Pego-lhe. Sento-me no sofá. Abro-o numa parte chamada de As Palavras Interditas. Leio-o o primeiro poema. O segundo. O terceiro. O décimo. De repente olho para a janela. Reparo na constante mudança de intensidade de luz. Elaboro uma piada execrável: o sol está a falar comigo. Levanto-me do sofá. Arrependo-me de mim. Penso em borboletas e em colibris. O piano toma-me. Começo a dançar de olhos fechados. Ocorrem-me imagens várias. Aumento o volume. Apetece-me explodir. Danço com mais intensidade. O suor já cai. Estou abraçado ao silêncio interior. A beleza da música molda-me. Acho-me imortal. Cai-o perpetuado na cama. Dispo-me. Atiro os lençóis da cama para o chão. Empurro a cómoda. Desarrumo ainda mais. Peço a Deus, cuja existência não acredito, que me leve para junto dele. Que me nomeie arrumador de carros no paraíso. Presumo que todos os carros sejam híbridos. A luz dissipa-se levemente. Relembro a toada dos teus beijos. Apetece-me viajar. Conhecer o mundo. Cravar no peito lembranças para que a nostalgia na hora da morte intensifique a despedida. Prometo nunca mais falar em morte. Basta-me estes devaneios à maneira do Ruy Belo. Eu que um dia já sonhei em ser poeta. Espero pelo nada. Talvez saia esta noite. Talvez jante em casa. Espero pelo nada. Deixo o tempo correr. O tempo é um rio dizem todos os poetas. Tenho imenso pêlos. Merda de velhice. Se os cortar volto a ser criança. Volto a jogar futebol com o André Mendes. Volto a jogar ao quarto escuro com a Claudiana. No próximo ano vou estar em Paris. Ou no Rio de Janeiro. Ou em Évora. Ou no Pão de Açúcar em Santo Tirso. Mudo de álbum. Ponho um ainda mais triste. Imagino-me no Leblon. O mar com montanhas. Chuva a cair sobre a janela. Eu nostálgico e superior. Ponho o volume no máximo. O som fica menos perfeito. Relembro Paris. Certos odores. O Trocadero. Todo aquele Neo-clássico. A Arte nova. A chuva que caiu numa tarde de Agosto. Salto em cima da cama. Quero que ela parta. Quero que este quarto fique como a fotografia destroyed room do Jeff Wall. Penso em tudo e tudo me confunde. Para quê a harmonia? A beleza das coisas? Vejo-me destruído por dentro. Desarrumado. Não sou poeta. Não tenho ninguém para dançar comigo. Só o silêncio desmedido que rumina no interior. Só. Decido-me. Fecho a janela e a porta. Destruo a luz. Embrulho-me nos lençóis. Enrolo-me. Medito. Cerro os olhos na esperança de que o sono me traga um sonho. Outra realidade que não a maça sobre a janela da Sophia. Espero. Espero. Espero eternamente.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Pequena Reflexão

Nunca, em qualquer momento, ao longo do meu crescimento e das minhas aprendizagens, me foi indiferente este complexo titânico de fenómenos e de ambiguidades com que se caracteriza o mundo.

Numa, humilde, análise á humanidade, desde os seus primórdios, penso que nunca outra coisa foi tão severa e tão essencial para o Homem como perceber a lógica da existência da vida e, por consequência, do mundo. Poderemos perspectivar o planeta e sua evolução sob várias formas. Mas veremos que todas, por caminhos diferenciados, irão confluir numa mesma direcção – o de explicar o sentido da existência humana.

Provavelmente, e considero-me um dos tantos transeuntes deste mundo, estaremos como civilização presente muito longe dessa descoberta e, por ventura, duvido que o tempo que medeia o presente e o da implosão final do mundo chegue para que o descubramos.

Embora mergulhados nesta questão essencial, entre avanços e recuos, entre guerras e descobertas tecnológicas, é certo que o planeta e a humanidade continuam a habitar o tempo e a transformação dos princípios que constituem a nossa sociedade ocorrem a uma velocidade cada vez maior.

Garantir que o futuro da civilização e do planeta seja promissor não é, apenas, uma obrigação de consciência. É, também, uma atitude altruísta e filantrópica que simboliza que o irracionalismo da condição inicial se perdeu e que o ser humano enlevado consegue racionalizar inteligivelmente as suas acções.

Há aqueles que, apesar das atenuantes, acreditam no futuro. Para o reputado Sociólogo Alvin Tofler “com inteligência e um mínimo de sorte – a civilização emergente pode tornar-se mais sã, sensata e sustentável, mais decente e mais democrática do que qualquer que jamais conhecemos”

É nosso dever como privilegiados, como estudantes do ensino superior com constante acesso ao conhecimento erudito, dirigirmos as nossas acções e contribuirmos para a melhoria do futuro.

Por isso, este projecto direccionado para o desenvolvimento humano.
(Prefácio do trabalho de gestão)

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Joseph Beuys, DeadHare

o fogo crispou-se no terror das casas rarefeitas. de baldes secos em punho sou eu extravasado que acorro.
tangente aos sonhos recolho-me na espiral do teu sono. refaço, com gestos e palavras de proletário, a noite onde habitas os lugares mais puros