sexta-feira, 25 de dezembro de 2009


Medo de me destruir em napalm

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Diário de Paris

Sei que pela igreja entrava o mar, como um rasto raso de sangue
as ondas pela protecção das paredes pareciam domesticadas
Foi ali naquele espaço decorado entre o barroco e o neoclássico
ou qualquer estilo que não tem a menor importância
Com a água a baloiçar nos nossos pés
Entre mergulhos e contemplações sobre o bizarro da situação
Que encontrei a tua boca, qualquer coisa de muito liso na tua pele

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

[caim, esse sindicalista dos direitos do homem, eleito pelo acaso do temp0]

e eu, herege, imolado nestas tantas blasfémias, anos milhares depois

pronto para morrer no longo sorriso do Senhor


como o temo

e talvez venha Lídia e me limpe, talvez me congele e me salve.

vem Lídia

vem

sábado, 3 de outubro de 2009

não tenho vontade de morrer

tão pouco soterrar-me pela terra adentro


nem sequer vontade de vociferar o animal resignatário da minha garganta


talvez ficar com o olhar permanente nesta parede estática


que me acompanha o frio


e esperar pelas madrugadas de luz inicial


pelos movimentos mais simples


Séraphine, a mulher-a-dias que pintava a sua visão da natureza nas horas vagas.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Pierre Debusschere, true stone

terça-feira, 22 de setembro de 2009

ei-los
os aviões frágeis de napalm
a sobrevoarem as feridas abertas do universo na redução evolutiva do homem
ei-los
em conflito pela dor do sangue em circulação contrária
em bombardeamento constante

estridentes os sons das televisões enquanto carros de metal se acidentam na chuva da noite

imagens repetitivas de homens degolados

incêndios sobre incêndios

como se inclina a manhã perante o caos
para onde escorrerá a água pura das nascentes

e lembro-me dos livros sobre as atrocidades das guerras coloniais

ei-los
sobre os corpos brotados das gargantas das jibóias
filmados pelas câmaras da irrealidade

a chuva cai nos átrios do mundo sob imagens de violência
mas cai também nos átrios pseudo pacíficos
cai no centro de nós
no axioma da nossa própria vida
preso por guindastes que nos comandam a uma eterna condição

emula-se a mulher na parede areada

gangrena nas veias dos poemas

a epistemologia encrava-se nos relógios
e a dor perpetua-se

ei-los
aos magotes nas filas do pão
nos escritórios
nos bunkers de si mesmos

filas de trânsito nas grandes cidades

grandes narrativas do homem contemporâneo no alter ego dos intelectuais

crianças abortadas na clandestinidade

impelidos pelo egoísmo deturpamos o amor
nunca existiu amor
este é o substantivo mais parecido com Deus

ei-los

eis-me aqui
por detrás destas palavras
inerte
aspirante a carrasco na praça pública mais próxima do coração

eis-nos

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Imagina esses pássaros todos os dias da tua vida
A comerem-te a focagem dos olhos
como ratazanas iridescentes no coração dos teus afagos
E tu amorfo pseudo-intelectual a recorrer a processos semióticos
a axiomas esgotados

[Corta a tesoura a sebe caem escadas no pátio do corpo]

Sobe-te uma dor de sangue preto só vista nos poemas do Al Berto
Que te atinge os dedos o pénis quando o outro corpo é só carne
E avistas remoinhos de helicópteros gretados
Insectos de pedra
Pressentes debaixo da língua contingentes de pessoas mortas

[sempre para além do manual de instruções]

Como parar esta alucinação perdida entre a noção de real e de irreal
Como reconstruir as destruições sucessivas do corpo de facas espetadas
Pelas cicatrizes
Como abandonar a minha vida ao submundo
Da incerteza

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Calla Rossa, Favignana

e esse azul tão próximo da morte, tão perto do excesso. quis desaparecer, entoar-me no preciso momento em que me confrontei contigo

Este foi o meu primeiro contacto com a obra de João César Monteiro. E talvez não tenha surgido na altura mais feliz, agora que tudo se tornou uma colecção de fracassos.
por fim as mãos manchadas do teu sangue.

todo o meu esófago repleto de pássaros.



quero o teu corpo. essa manhã alargada pela imaginação

segunda-feira, 20 de julho de 2009



o melhor filme de 2008

quinta-feira, 9 de julho de 2009

desencantaste-me, e eu tão baço a mutilar-me de frustração

terça-feira, 9 de junho de 2009

O Encontro

Como se um raio mordesse

meu corpo pêro rosado

e o namorado viesse

ou em vez do namorado



um novilho atravessasse

meus flancos de seda branca

e o trajecto me deixasse

uma açucena na anca



como se eu apenas fosse

o efeito de um feitiço

um astro me desse um couce

e eu não sofresse com isso



como se eu já existisse

antes do sol e da lua

e se a morte me despisse

eu não me sentisse nua



como se deus cá em baixo

fosse um cigano moreno

como se deus fosse macho

e as minhas coxas de feno



como se alguém dos espaços

me desse o nome de flor

ou me deixasse nos braços

este cordeiro de amor

Natália Correia

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Thomas Ruff

move-te corpo insano move-te de dor e de prazer
oscila na nevralgia do pénis

esmaga-o surpreende os limites do teu coração
esse órgão tão frágil como o vento nos rios

e intenta a moral o espírito do tempo os códigos culturais
abana-te e diz-lhe que és uma prostituta porca sostra
que queres que ele te foda o cu como os marinheiros na chegada ao cais

sim rasga o tempo com a raiva do coito destrói milhares de anos de escravidão

[essa praia bendita que não chega, esse dia de luz pura…]

segunda-feira, 18 de maio de 2009


as aa sd da tua voz molhada de saliva

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Jackson Pollock

queria não ter memória de algumas palavras e de algumas imagens
mas olho para as minhas mãos e o incêndio de dor começa
Oliviero Toscani

terça-feira, 5 de maio de 2009



questiono as multidões como sempre questionei a minha hipotética tentativa de civilidade

assim começam as imagens a pulsar no ventre dos pulsos

o barulho massificado dos passos
rumo às comunidades primitivas que disputavam violentamente entre si o alimento e o território

rumo às actuais
jurisdições dos estados de direito que organizam as populações e reforçam o papel da sociabilidade não como elemento altruísta mas como sustento da sobrevivência

para onde onde vamos


terça-feira, 28 de abril de 2009

EDWARD STEICHEN

[tenho lido sobre fenómenos de simulação do real, sobre factos que nos levam para uma espécie de hiper-realismo, mais ou menos dizer que a nossa vida é uma farsa. por isso tenho me preocupado com a isenção do amor, acto puro ou sobrecarga de ilusões?]

tu és transficcional muito para além dos meus sentidos no teu corpo vens do interior dos ossos do escuro mais silencioso do inconsciente

sexta-feira, 27 de março de 2009


Querida Irene:

de África só sei as cores sincréticas do céu que imaginava nas histórias de sol do meu pai. mesmo assim peço-te que me leves para detrás das árvores. para Jessumina dos poderes puros.
eu sei que o real não existe mas a memória do teu corpo desgovernado de tanta luz surge e tudo trepida envolta

quinta-feira, 26 de março de 2009

despenhada pela janela por vezes ainda vens e arrumas os livros na estante as camisolas no roupeiro

avisas-me do jogo de futebol com os amigos do preço da viagem e da conta do telemóvel

eu simplesmente ardo embaraçado na cadeira partida

olho-te para os olhos cor do mar estirado no preto e branco do silêncio

quinta-feira, 19 de março de 2009

"As cidades" de Rodrigo Leão

comentei à pouco com a mariana na varanda do S. Jorge como me tenho sentido ambivalente nestes últimos meses. realmente já não sei se acredite no socialismo ou no capitalismo, no racionalismo da ciência ou no fundamentalismo da religião, no altruísmo ou no egoísmo, no amor eterno ou no amor fugaz. vivo numa total indeterminação ética, sem qualquer tipo de mundividência sustentada.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Noël Dolla

tu, corpo congenital e límpido, serias o húmus da terra
aquela mulher que bebe o mijo do soldado, apocalipse de um postulado ignorante

dor inflacionada de jesus cristo,

é a verdadeira alegoria de todos nós

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Gregory Crewdson, Ophelia, 2001, Digital C-Print

e de repente engoli-me na tua imaginação no axioma do teu interior: possibilidade de luz fictícia

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Cedo ou tarde

Devias saber
que é sempre tarde
que se nasce, que é
sempre cedo
que se morre. E devias
saber também
que a nenhuma árvore
é lícito escolher
o ramo onde as aves
fazem ninho e as flores
procriam.

Albano Martins
Escrito a vermelho

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Sdrowa Worsky - Rodrigo Jazinski

eu queria construir contigo um infinito demasiado claro algo que excedesse a dimensão de deus e do universo. muito mais do que o alimento necessário na sedimentação das palavras e dos gestos. do que os corpos continuadamente a penetrarem a imensidão do real

queria combustões de cores um lago no cume do corpo o pólen da tua boca no meu esófago nos intestinos na raiz dos meus olhos. imagens e imagens e imagens de coisas a arder de pedaços de vida a nascer

veredas possantes de luz

uma linguagem fora da megalomania do cosmos que só tu barco frágil dos poemas do Eugénio poderias compreender

sábado, 31 de janeiro de 2009


[agora] sobre o silêncio nascem margaridas e invernias

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Vladimir Velickovic

talvez porque eu seja um corpo violado ainda adormecido no coma talvez porque a crueza dos gestos se tenha despenhado por entre todas as minhas coisas íntimas e o delíquio permaneça até hoje nos suspiros não controlo o tempo os seres humanos a sua desumanidade por isso recôndito me encoste na protecção dos poemas e da voz fria da vida eu tenha medo

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

"Coma" de Yann Tiersen

sem imagens. sem janelas. sem interior à demasiado tempo.
apenas vês o telhado aberto. os rodopios da temperatura. a cor modelar do céu. eu vivo cá em baixo. na cozinha cheia de fumo. no aconchego de jornais sem tempo.
sinto a chuva ríspida de frio cair. por todo o corpo. a roupa encharcada.
Julião Sarmento

agora já não grito mas durante muito tempo quis dizer-te uma palavra que não existe

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Michael Wesely, Der Orinoco am Camp Orinoquia, nachmittags


minha flor de miosótis pequeno anjo quimérico hei-de tombar toda a brancura da água sobre ti

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Mark Rothko


o mar. essa alucinação da garganta. esse grito inexorável de uma dor tão funda.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009


reviro os olhos à procura de ti dentro de mim

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Mark Rothko

quero falar-te da luz. preciso de te dizer da luz. esse fragmento. o que provoca por detrás dos meus olhos.

sábado, 3 de janeiro de 2009


se pudesses vir, Blimunda

consentida por Baltazar

e me visses por dentro