terça-feira, 31 de agosto de 2010

Reflectindo Edgar Morin

a prostituta cuja posição quadril reforça o cheiro a mijo
desinibe-se na bigorna do cliente como sua mãe já se desinibira na bigorna
de seu pai
o que não contaríamos todos quantos lá vamos
mesmo ficando terminantemente em casa
é que ela nos dissesse em plena corrida
«o amor é uma ave frágil a tremer nas mãos de uma criança»
para chorarmos em coro as palavras que não sabemos dizer
tu disseste que virias eu esperei-te no corpo errado

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

devaneio

viver na lâmina que corta o caule da divina flor
viver nas cavernas do sofrimento sem qualquer outra opção musical
viver na ontologia da infelicidade que nos repete
tu és somente o início do teu próprio egoísmo tu és a alegoria do teu próprio choro
quando no corpo do outro pensámos remeter amor
e apenas dentro de nós existe um animal político sem esquadros de linearidade
azulejos partem-se na língua da mulher que amamos e odiamos
montanhas rasam-se no desespero
e tudo se trata de um caminho plural que atravessa o tempo
do homem que se passeia incessantemente no quarto de insónia
e que abre ao real as figuras andrajosas dos seus sonhos
habitar aqui
nunca ter habitado
porque nunca se habita o que não existe
e sentir no irreal as dolorosas dores da realidade

domingo, 22 de agosto de 2010

devaneio

pelo fogo mais vulgar no centro dos poemas na hora mais difícil de chorar
sermos homens de regeneração nas traves da nossa insipiência
nós que chegámos tarde ao amor e que cedo dele saímos
como refutar as protuberâncias de uma fragilidade que é força e ineficácia
e sabermos o ser bipolar e contraditório
a descer as calçadas do mar como metáfora de uma grandeza que só
existe na destilação da água das puras nascentes
mas porquê o mito e a apetência para a pele calorosa do outro
porque dormem os filhos recém-nascidos nos peitos e braços das mães
porque partilharam a mesma cama Lídia e Ricardo Reis
sapiens demens respondem em coro os estivais homens que restam
mesmo se a distância desmesura as distâncias do ódio e do amor para uma escala
incompreensível
e finalmente falar de ti neste contexto do homem que nunca desceu as calçadas
porque se imaginou subir as agruras dos caminhos
mulher dos cabelos cor de lava
tu que és sempre incêndio sem o ser tu que gritas sempre dentro de mim as palavras
mais nutritivas sem que a tua garganta oscile
para lá das montanhas e dos neutrinos da humanidade
tu que me impeles para ti sem recurso a ímanes cosmogónicos
numa espécie de ventosa prolixa
eu individual num não amor
certamente numa visão obliterada de uma realidade que não acedo
entre os dizeres de um navio que partirá para a chegada sempre solitário
com sonhos de amor utópico e eterno
eis-nos e eis-me na distopia do amor que não ama mesmo amando
por onde eclodir desta alienação por onde encontrar a resolução simples das coisas

terça-feira, 10 de agosto de 2010

porque ouço os passos de quem nunca vai chegar
eles vão de mãos dadas pelos arrabaldes da manhã
eles caminham na direcção do próximo dia
sem que um corpo branco se deflagre
para estremecer a paz hedionda de outro corpo que espera

não há verdade não há
se me disseres vem pelo vento eu virei pelo mar mesmo que sobre ele
não haja estradas
e tombas no sofrimento sanguíneo com que bates na parede

para lá da certeza está sempre a dor
para lá de ti eu não existo mesmo que respires o que o coração
bombeia
uma mulher chora dentro de mim
eu choro dentro de uma mulher

terça-feira, 3 de agosto de 2010

nas gaivotas do vento tu pousaste a carne
tu enunciaste a morte

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Conversa com Eugénio de Andrade sobre Frederico Garcia Lorca (Estudos Intertextuais)

descobri o teu vento e o sumo suculento dos teus frutos nos poemas de Lorca
trinta minutos para as quatro da manhã no «vale» silencioso do meu quarto
como adolescente que precisa de sentir o calor do outro corpo

assim revi Lorca morto por um tiro num arrabalde Franco com as mãos ensanguentadas
Dali com as mãos ensanguentadas
e tu que lhe colheste as palavras
para que não restasse qualquer gota de água perdida
para que não restasse nenhuma boca sem saliva

fazem agora os teus versos amor com os dele ambos com o mesmo sexo
ambos com a sensualidade das primaveras a amarem-se na proa dos navios
todo o Alentejo silenciado

daqui te pergunto
porque morrem os poetas jovens sem que nenhum arquipélago se afunde

domingo, 1 de agosto de 2010


Cheyco Leidman