quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Discurso auto-reflexivo acerca deste blogue

A construção deste espaço nunca foi, para mim, um acto caprichoso de vaidade ou uma forma presumida de criar um discurso erudito para exacerbação ou valorização própria. Alias, nunca, em qualquer momento, da minha parte, houve uma intenção de publicitação massiva. Foram, e como provam as pouquíssimas visitas de que este espaço foi alvo, informadas, apenas, pessoas cuja proximidade e sensibilidade me davam a impressão de querem partilhar, comigo, estes pequenos pedaços de momentos efémeros.

Se, eventualmente, alguém ficou com a ideia do contrário queria, desde já, desmitificar essa hipótese. Sempre parti de uma premissa muitos simples: quem através do infinito conhecimento procura, de uma forma séria, a verdade e o seu auto-entendimento deve, obrigatoriamente, ser avesso a trivialidades como a vaidade ou a presunção. A descoberta, como seres humanos, do nosso enquadramento no espaço e no tempo é, no meu entender, um exercício bastante sério e urgente.

Portanto, por outras palavras, para que me compreendam, entendo a arte como a acção mais profunda da humanidade, apresentando-se, verdadeiramente, como único caminho para a transcendência.

E a arte, embora, a todos os níveis, ambígua, não se circunscreve somente a determinadas elites. Qualquer acto que nos afaste da nossa condição inicial de “animais acossados na luta pela sobrevivência”
[1] , qualquer forma de expressão e reflexão, mesmo que pequena e simbólica, mesmo que com baixos códigos de leitura ou baixos índices sócio - culturais, é uma forma de arte. Certamente, não terá o mesmo valor de obras eruditas, reconhecidas por uma comunidade e por um público, no entanto, pelo menos, terá um valor simbólico – representa um importante crescimento interior.

É com esta consciência e com este pensamento que este blogue se processa. Busco-me como ser humano, ciente de que a cada palavra, a cada frase ou verso, me humanizo e me dignifico.

Para finalizar, e chegando ao objectivo primordial desta reflexão, não discuto a suposta fundura das minhas reflexões nem a qualidade ou beleza dos textos. Humildemente, reconheço as minhas falhas, os meus erros, a minha inaptidão. Mas nunca, em qualquer situação, aceitarei que chamem às minhas palavras vulgares porque elas embora, horríveis e modestas, representam um momento, particular e íntimo, de descoberta e de procura a todos os níveis. Elas são a prova evidente de que me refuto a qualquer tipo de alienação e que, ao mesmo tempo, não sou um mero animal irracional.

[1] Sophia de Mello-Breyner Andresen - “Posfácio”, Livro Sexto, Lisboa, Moraes Ed., 1976, pp.75-77

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Kitaj, Agaist Slander

se queres o mar vem alcança-lo na minha boca

Andy Warhol, atomic bomb

palavras vindas de lugares onde a água é pura e os dias claros palavras que me dizimaram

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

XXXI Espera

Horas, horas sem fim,
Pesadas, fundas,
Esperarei por ti
Até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
E floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
E no silêncio desapareça.

Eugénio de Andrade, As mãos e o frutos

porque um dia num futuro indeterminado terão todas as manhãs a cor dos teus olhos

domingo, 24 de fevereiro de 2008

David Hockney

Reabro-me por dentro e traço todas as conjecturas possíveis: -fenecerei onde as gaivotas forem mar.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

XI

Olhos postos na terra, tu virás
no ritmo da própria primavera,
e como as flores e os animais
abrirás nas mãos de quem te espera.

Eugénio de Andrade, As mãos e os frutos

Digo-te – a voz difícil, sim, a voz vacilante e ressoada – sobre esta condição insignificante de ser homem totalmente efémero, és a luz mais inefável, a que sobre veredas e veredas soletra todo o meu corpo.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Eduardo Chillida, Ponte de Vento

tenho esperança que deus se levante do seu sono infinito e me sorva todo o sofrimento

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008


(Emigrou o meu tio para a Córsega e, por isso mesmo, por essa curiosidade estranha de saber para onde irá a minha biologia comprei o filme.)

pousar os meus lábios sobre todo o teu corpo saborear a tua pele poro a poro dizer-te a brados que não suporto a beleza dos teus ombros cheios de luz

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Jeff Wall, destroyed room

Todo o interior destruído este mar poluído em ondas convulsas dentro de mim as palavras que atravessam um vazio de séculos e a luz dos teus olhos ao fundo persistente numa esperança que teima em não acontecer
Brice Marden

quer dances ou escrevas poemas quer olhes para os confins do céu ou pintes homens sobre mulheres quer encerres um desejo material ou inventes a coisa mais comum

procura a verdade a moralidade de todas as coisas

e se não a souberes rebusca-te a ti próprio pergunta a ti mesmo quem tu és de onde vens

As palavras secaram dentro de mim e não é verão.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Imagem do filme: Costa dos Murmúrios


não acreditas quando te digo amplo que sobrevivo na claridade dos teus versos

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Trova do Vento que Passa

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém me diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que eu morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio - é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).
Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira dum rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre

Para os que lutaram pela minha liberdade um céu cheio de estrelas

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Robert Zund, The harvest potter

(A realidade. As montanhas de neve erguidas em mim, os diversos mares onde entrepus o teu corpo, a cidade de luzes e torres de canais e castelos, a inverdade avassaladora deste mundo.)

Suspendo-te na minha reflexão, bem perto da fronteira onde os sonhos se reagrupam e os medos se reconfiguram. Não tenho mais a dizer-te do que isto. Entre o caos da realidade e a loucura das fantasias pouco mais de que um pássaro frágil e ténue.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Reinhard Bachl, my personal life


Também eu rasgado e dizimado pelo fogo da tua pele a palavra amo-te que abre um silêncio entre nós seremos o prolongamento do verso

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008


Também o céu é um pedaço de mar