domingo, 7 de novembro de 2010

Eugénio de Andrade_Cip.mpg

Ira

e grito com asas porque voou a tua voz
tu que perdeste a locomoção para mim e que estridente permaneces
na voragem sensorial da minha frustração

é uma cavidade esta dor
um veio de napalm no interstício dos meus pulmões

    «- Vou-me embora. Nunca mais tornarás a ver-me. Acabou-se, percebes?
    O homem afastou-lhe a mão, quis dizer qualquer coisa, mas naquele momento aproximou-se o escanção.
    Então o homem interrompeu-se, com movimentos desajeitados arrastou a sua cadeira até a colocar junto à dela e ordenou ao escanção que servisse.
    A garrafa ergueu-se, inclinou-se ao chegar à altura própria e o jorro de sidra descreveu o arco dourado em busca da boca sedenta do copo.
    - Estás a vê-lo? – perguntou o homem.
    - Que queres tu que eu veja? Por amor de Deus, que queres tu que eu veja?
    - Outro, se faz favor.
    O escanção recebeu o copo e apressou-se a executar novamente o seu ritual.
    O homem pôs um braço sobre os ombros da mulher e, no instante em que o jorro voava, apontou para um ponto invisível debaixo do arco de sidra.
    - Estás a vê-lo? Lá, como nas histórias. Atravessando o arco da entrada do templo do sonhos, lá, lá está o mar.»

Luís Sepúlveda, “Encontro de amor num país em guerra” – Formas de ver o mar