para te ouvir no barlavento desta insónia tu que não existes
ou que existes na forma como queria que não existisses
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
domingo, 7 de novembro de 2010
«- Vou-me embora. Nunca mais tornarás a ver-me. Acabou-se, percebes?
O homem afastou-lhe a mão, quis dizer qualquer coisa, mas naquele momento aproximou-se o escanção.
Então o homem interrompeu-se, com movimentos desajeitados arrastou a sua cadeira até a colocar junto à dela e ordenou ao escanção que servisse.
A garrafa ergueu-se, inclinou-se ao chegar à altura própria e o jorro de sidra descreveu o arco dourado em busca da boca sedenta do copo.
- Estás a vê-lo? – perguntou o homem.
- Que queres tu que eu veja? Por amor de Deus, que queres tu que eu veja?
- Outro, se faz favor.
O escanção recebeu o copo e apressou-se a executar novamente o seu ritual.
O homem pôs um braço sobre os ombros da mulher e, no instante em que o jorro voava, apontou para um ponto invisível debaixo do arco de sidra.
- Estás a vê-lo? Lá, como nas histórias. Atravessando o arco da entrada do templo do sonhos, lá, lá está o mar.»
Luís Sepúlveda, “Encontro de amor num país em guerra” – Formas de ver o mar
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
lá longe, lá tão longe que é tão próximo, habitam homens feitos de segredos sanguinários que se escondem nos carros e nas casas, nos parques públicos e nos hospitais, na profissão e nas esquadras de polícia, no casamento e nos cafés, viajam pela marcha urbana,
mas uma vez feita a ferida para sempre a cicatriz
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Marcel Dinahet
Marcel Dinahet, 1996 Cabo–Espichel, Musée d'histoire naturelle de Lisbonne, invited by Isabel Vila Nova (solo)
nada direi mesmo que te vocifere palavras de amor
do alto da tua falésia cairei
cabo espichel da minha vida - ocidente de um sonho colectivo
nada direi mesmo que te vocifere palavras de amor
do alto da tua falésia cairei
cabo espichel da minha vida - ocidente de um sonho colectivo
sábado, 4 de setembro de 2010
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Reflectindo Edgar Morin
a prostituta cuja posição quadril reforça o cheiro a mijo
desinibe-se na bigorna do cliente como sua mãe já se desinibira na bigorna
de seu pai
o que não contaríamos todos quantos lá vamos
mesmo ficando terminantemente em casa
é que ela nos dissesse em plena corrida
«o amor é uma ave frágil a tremer nas mãos de uma criança»
para chorarmos em coro as palavras que não sabemos dizer
a prostituta cuja posição quadril reforça o cheiro a mijo
desinibe-se na bigorna do cliente como sua mãe já se desinibira na bigorna
de seu pai
o que não contaríamos todos quantos lá vamos
mesmo ficando terminantemente em casa
é que ela nos dissesse em plena corrida
«o amor é uma ave frágil a tremer nas mãos de uma criança»
para chorarmos em coro as palavras que não sabemos dizer
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
devaneio
viver na lâmina que corta o caule da divina flor
viver nas cavernas do sofrimento sem qualquer outra opção musical
viver na ontologia da infelicidade que nos repete
tu és somente o início do teu próprio egoísmo tu és a alegoria do teu próprio choro
quando no corpo do outro pensámos remeter amor
e apenas dentro de nós existe um animal político sem esquadros de linearidade
azulejos partem-se na língua da mulher que amamos e odiamos
montanhas rasam-se no desespero
e tudo se trata de um caminho plural que atravessa o tempo
do homem que se passeia incessantemente no quarto de insónia
e que abre ao real as figuras andrajosas dos seus sonhos
habitar aqui
nunca ter habitado
porque nunca se habita o que não existe
e sentir no irreal as dolorosas dores da realidade
viver na lâmina que corta o caule da divina flor
viver nas cavernas do sofrimento sem qualquer outra opção musical
viver na ontologia da infelicidade que nos repete
tu és somente o início do teu próprio egoísmo tu és a alegoria do teu próprio choro
quando no corpo do outro pensámos remeter amor
e apenas dentro de nós existe um animal político sem esquadros de linearidade
azulejos partem-se na língua da mulher que amamos e odiamos
montanhas rasam-se no desespero
e tudo se trata de um caminho plural que atravessa o tempo
do homem que se passeia incessantemente no quarto de insónia
e que abre ao real as figuras andrajosas dos seus sonhos
habitar aqui
nunca ter habitado
porque nunca se habita o que não existe
e sentir no irreal as dolorosas dores da realidade
domingo, 22 de agosto de 2010
devaneio
pelo fogo mais vulgar no centro dos poemas na hora mais difícil de chorar
sermos homens de regeneração nas traves da nossa insipiência
nós que chegámos tarde ao amor e que cedo dele saímos
como refutar as protuberâncias de uma fragilidade que é força e ineficácia
e sabermos o ser bipolar e contraditório
a descer as calçadas do mar como metáfora de uma grandeza que só
existe na destilação da água das puras nascentes
mas porquê o mito e a apetência para a pele calorosa do outro
porque dormem os filhos recém-nascidos nos peitos e braços das mães
porque partilharam a mesma cama Lídia e Ricardo Reis
sapiens demens respondem em coro os estivais homens que restam
mesmo se a distância desmesura as distâncias do ódio e do amor para uma escala
incompreensível
e finalmente falar de ti neste contexto do homem que nunca desceu as calçadas
porque se imaginou subir as agruras dos caminhos
mulher dos cabelos cor de lava
tu que és sempre incêndio sem o ser tu que gritas sempre dentro de mim as palavras
mais nutritivas sem que a tua garganta oscile
para lá das montanhas e dos neutrinos da humanidade
tu que me impeles para ti sem recurso a ímanes cosmogónicos
numa espécie de ventosa prolixa
eu individual num não amor
certamente numa visão obliterada de uma realidade que não acedo
entre os dizeres de um navio que partirá para a chegada sempre solitário
com sonhos de amor utópico e eterno
eis-nos e eis-me na distopia do amor que não ama mesmo amando
por onde eclodir desta alienação por onde encontrar a resolução simples das coisas
pelo fogo mais vulgar no centro dos poemas na hora mais difícil de chorar
sermos homens de regeneração nas traves da nossa insipiência
nós que chegámos tarde ao amor e que cedo dele saímos
como refutar as protuberâncias de uma fragilidade que é força e ineficácia
e sabermos o ser bipolar e contraditório
a descer as calçadas do mar como metáfora de uma grandeza que só
existe na destilação da água das puras nascentes
mas porquê o mito e a apetência para a pele calorosa do outro
porque dormem os filhos recém-nascidos nos peitos e braços das mães
porque partilharam a mesma cama Lídia e Ricardo Reis
sapiens demens respondem em coro os estivais homens que restam
mesmo se a distância desmesura as distâncias do ódio e do amor para uma escala
incompreensível
e finalmente falar de ti neste contexto do homem que nunca desceu as calçadas
porque se imaginou subir as agruras dos caminhos
mulher dos cabelos cor de lava
tu que és sempre incêndio sem o ser tu que gritas sempre dentro de mim as palavras
mais nutritivas sem que a tua garganta oscile
para lá das montanhas e dos neutrinos da humanidade
tu que me impeles para ti sem recurso a ímanes cosmogónicos
numa espécie de ventosa prolixa
eu individual num não amor
certamente numa visão obliterada de uma realidade que não acedo
entre os dizeres de um navio que partirá para a chegada sempre solitário
com sonhos de amor utópico e eterno
eis-nos e eis-me na distopia do amor que não ama mesmo amando
por onde eclodir desta alienação por onde encontrar a resolução simples das coisas
terça-feira, 10 de agosto de 2010
eles vão de mãos dadas pelos arrabaldes da manhã
eles caminham na direcção do próximo dia
sem que um corpo branco se deflagre
para estremecer a paz hedionda de outro corpo que espera
não há verdade não há
se me disseres vem pelo vento eu virei pelo mar mesmo que sobre ele
não haja estradas
e tombas no sofrimento sanguíneo com que bates na parede
para lá da certeza está sempre a dor
para lá de ti eu não existo mesmo que respires o que o coração
bombeia
eles caminham na direcção do próximo dia
sem que um corpo branco se deflagre
para estremecer a paz hedionda de outro corpo que espera
não há verdade não há
se me disseres vem pelo vento eu virei pelo mar mesmo que sobre ele
não haja estradas
e tombas no sofrimento sanguíneo com que bates na parede
para lá da certeza está sempre a dor
para lá de ti eu não existo mesmo que respires o que o coração
bombeia
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Conversa com Eugénio de Andrade sobre Frederico Garcia Lorca (Estudos Intertextuais)
descobri o teu vento e o sumo suculento dos teus frutos nos poemas de Lorca
trinta minutos para as quatro da manhã no «vale» silencioso do meu quarto
como adolescente que precisa de sentir o calor do outro corpo
assim revi Lorca morto por um tiro num arrabalde Franco com as mãos ensanguentadas
Dali com as mãos ensanguentadas
e tu que lhe colheste as palavras
para que não restasse qualquer gota de água perdida
para que não restasse nenhuma boca sem saliva
fazem agora os teus versos amor com os dele ambos com o mesmo sexo
ambos com a sensualidade das primaveras a amarem-se na proa dos navios
todo o Alentejo silenciado
daqui te pergunto
porque morrem os poetas jovens sem que nenhum arquipélago se afunde
trinta minutos para as quatro da manhã no «vale» silencioso do meu quarto
como adolescente que precisa de sentir o calor do outro corpo
assim revi Lorca morto por um tiro num arrabalde Franco com as mãos ensanguentadas
Dali com as mãos ensanguentadas
e tu que lhe colheste as palavras
para que não restasse qualquer gota de água perdida
para que não restasse nenhuma boca sem saliva
fazem agora os teus versos amor com os dele ambos com o mesmo sexo
ambos com a sensualidade das primaveras a amarem-se na proa dos navios
todo o Alentejo silenciado
daqui te pergunto
porque morrem os poetas jovens sem que nenhum arquipélago se afunde
domingo, 1 de agosto de 2010
quarta-feira, 28 de julho de 2010
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Estudos de Intertextualidade (continuação)
e tu disseste que virias na tarde que nunca vieste
os rios despidos os animais sem água todas as roseiras
numa pulsação cadente de sede
falhar a promessa é revigorar a dor de quem esperará
de quem estendeu a sua ânsia nos gumes delicados do tempo
esperei-te para que me salvasses para que cumpríssemos o indizível
enquanto caem as tardes em eco enquanto rememoro a chuva nos desertos
são as coisas da vida o perecer da luz
diz continua a dizer resignações de problemas estivais
espero ainda com o meu singelo coração de napalm todo o espaço que te posso dizer
e tu disseste que virias na tarde que nunca vieste
os rios despidos os animais sem água todas as roseiras
numa pulsação cadente de sede
falhar a promessa é revigorar a dor de quem esperará
de quem estendeu a sua ânsia nos gumes delicados do tempo
esperei-te para que me salvasses para que cumpríssemos o indizível
enquanto caem as tardes em eco enquanto rememoro a chuva nos desertos
são as coisas da vida o perecer da luz
diz continua a dizer resignações de problemas estivais
espero ainda com o meu singelo coração de napalm todo o espaço que te posso dizer
domingo, 4 de julho de 2010
Poema a Muriel anos depois
morto está o teu admirador morreu no ano de 1976 penso
e fez questão de te deixar em palavras circuncidas a fogo
para que eu as lesse no silêncio meteórico deste sábado à noite
onde a solidão antes de mais é uma escolha ponderada
habitaste as ruas de Madrid
assim me vens na releitura fantasmagórica da imaginação
habitaste o coração de um homem claramente só e à procura
de uma extensão de sofrimento
terás sabido pergunto todos estes anos depois
terás sabido que habitaste porventura os desejos de um homem que escrevia poemas
que mergulhou no mar e cortou roseiras com os seus dentes cor de luz
que ante o poema pensou no teu rosto para dizer «duvidarei se tu estiveste onde estiveste»
ou foste tu apenas uma correspondência semiótica
de um amor ainda mais antigo
de alguém que quis ele ver em Madrid e nunca viu
Muriel,
se és real renegada foste com tempos perfeitos
e se não exististe com pulmões e brônquios
oscilas os corações no tempo intemporal de todos os homens do presente
dos homens que como eu vivem em 2010 e lêem ruy de moura belo
quando o sofrimento agudiza
escritor português nascido em Rio Maior
se não exististe existes
e contigo todos caminhámos os pássaros da inexactidão
contigo vamos aludindo as vozes desgarradas do ódio
tu «que alagas de luz todos os olhos»
morto está o teu admirador morreu no ano de 1976 penso
e fez questão de te deixar em palavras circuncidas a fogo
para que eu as lesse no silêncio meteórico deste sábado à noite
onde a solidão antes de mais é uma escolha ponderada
habitaste as ruas de Madrid
assim me vens na releitura fantasmagórica da imaginação
habitaste o coração de um homem claramente só e à procura
de uma extensão de sofrimento
terás sabido pergunto todos estes anos depois
terás sabido que habitaste porventura os desejos de um homem que escrevia poemas
que mergulhou no mar e cortou roseiras com os seus dentes cor de luz
que ante o poema pensou no teu rosto para dizer «duvidarei se tu estiveste onde estiveste»
ou foste tu apenas uma correspondência semiótica
de um amor ainda mais antigo
de alguém que quis ele ver em Madrid e nunca viu
Muriel,
se és real renegada foste com tempos perfeitos
e se não exististe com pulmões e brônquios
oscilas os corações no tempo intemporal de todos os homens do presente
dos homens que como eu vivem em 2010 e lêem ruy de moura belo
quando o sofrimento agudiza
escritor português nascido em Rio Maior
se não exististe existes
e contigo todos caminhámos os pássaros da inexactidão
contigo vamos aludindo as vozes desgarradas do ódio
tu «que alagas de luz todos os olhos»
sábado, 3 de julho de 2010
sexta-feira, 18 de junho de 2010
terça-feira, 15 de junho de 2010
quinta-feira, 10 de junho de 2010



(DANIEL FILIPE /NUNO JÚDICE/EUGÉNIO DE ANFRADE: estudos intertextuais)
tu reclinas os barcos ardilosos nos dois copos contíguos à mesa
e por isso pergunto-te: o que beberemos agora
que líquido na minha garganta para evacuar esta sede
eléctrica de barragens
empenhas-te em tombar o silêncio para que a minha palavra brote
queres a enxurrada de fogo no significante o brado no significado
mas os códigos nunca interessarão na simplicidade desta casa estival
estamos a sós nos ramos das macieiras
a conversa extinguiu-se no término vibratório da nossa última frase
já to disse interminavelmente embora não concebas a lógica
fisiológica do som
de ora avante estarei concentrado nas personagens da minha esquizofrenia para continuar a ser o homem mais simples
do mundo e remar
adiante a palavra entre nós só poderá ser um eczema violento
eximo-me assim
o que brilhou foi pássaro e não é mais
«Adeus»
sábado, 5 de junho de 2010
domingo, 30 de maio de 2010
segunda-feira, 24 de maio de 2010
a mulher que acorda doce na tarde
quando partir em viagem tu me dirás
todo esse mundo semântico e solarengo
respiro-te ainda sem convenções mas já não reconheço o teu rosto
tu me dirás
nessa tarde
ninguém imagina o carro que mutila a estrada
a velocidade é sempre a do sangue nas veias
não me «despeço da terra da alegria»
sofro na «terra da alegria»
os acordes da solidão a pró-forma da luz
[estou deitado em casa à procura do que nunca encontro. Fecho os olhos.]
se vieres talvez ainda estarei
quando partir em viagem tu me dirás
todo esse mundo semântico e solarengo
respiro-te ainda sem convenções mas já não reconheço o teu rosto
tu me dirás
nessa tarde
ninguém imagina o carro que mutila a estrada
a velocidade é sempre a do sangue nas veias
não me «despeço da terra da alegria»
sofro na «terra da alegria»
os acordes da solidão a pró-forma da luz
[estou deitado em casa à procura do que nunca encontro. Fecho os olhos.]
se vieres talvez ainda estarei
quarta-feira, 19 de maio de 2010
miradouro de santa luzia. era o tempo das perfeitas
semelhanças.
o vestido das luzes como um barco que se fazia pássaro
cobra.
não sei como voltar ao gosto próximo do veneno, agora que
somos estranhos estrangeiros na cidade vazia do mar e do
sal.
de que serve este poema se nada dos barcos permanece na
língua?
saberás como podem ser de espadas os versos lançados nas
avenidas
distantes da memória. saberás de jardins onde o mistério
é uma estátua de segredos inacessíveis líquidos como
lábios
de silêncio e de cristal saberás do corpo envelhecido
como folhas crepitando nas palavras perigo como estrelas.
não sabes como é voltar aqui: lugar do crime não sabes
como é voltar aqui:
voltar aqui: lugar do sangue não sabes como é voltar aqui
às colinas onde o sol se espalha e arrefece
voltar aqui como um barco no rio sem velas que não fossem
o plano das viagens tragadas pelo vício de voltar aqui
com o vício de estrangular pelos poemas a cidade que me
cerca.
in Um Barco no Rio
António Carlos Cortez
semelhanças.
o vestido das luzes como um barco que se fazia pássaro
cobra.
não sei como voltar ao gosto próximo do veneno, agora que
somos estranhos estrangeiros na cidade vazia do mar e do
sal.
de que serve este poema se nada dos barcos permanece na
língua?
saberás como podem ser de espadas os versos lançados nas
avenidas
distantes da memória. saberás de jardins onde o mistério
é uma estátua de segredos inacessíveis líquidos como
lábios
de silêncio e de cristal saberás do corpo envelhecido
como folhas crepitando nas palavras perigo como estrelas.
não sabes como é voltar aqui: lugar do crime não sabes
como é voltar aqui:
voltar aqui: lugar do sangue não sabes como é voltar aqui
às colinas onde o sol se espalha e arrefece
voltar aqui como um barco no rio sem velas que não fossem
o plano das viagens tragadas pelo vício de voltar aqui
com o vício de estrangular pelos poemas a cidade que me
cerca.
in Um Barco no Rio
António Carlos Cortez
sexta-feira, 14 de maio de 2010
domingo, 9 de maio de 2010
os teus cabelos compridos cor de terra vermelha a ilha compulsiva que se afasta desta manhã deste continente enevoado de sangue
debruça-te na minha boca esgota-a deposita-me essas tuas imagens de circuncisão
quero-te na minha pele esta noite onda que bate no asfalto em pleno sofrimento
meu amor
para sempre «carros despistados» nos solavancos deste grito
do meu orgasmo dentário desse teu estremecer torrencial de algo indizível
debruça-te na minha boca esgota-a deposita-me essas tuas imagens de circuncisão
quero-te na minha pele esta noite onda que bate no asfalto em pleno sofrimento
meu amor
para sempre «carros despistados» nos solavancos deste grito
do meu orgasmo dentário desse teu estremecer torrencial de algo indizível
segunda-feira, 3 de maio de 2010
quarta-feira, 28 de abril de 2010
podias vir
eu esperar-te-ia com a mesa limpa as cadeiras próprias
prepararia a cozinha azul para ti
falaríamos desse passado prolixo dessas tuas mãos poeirentas como calcário
utilizaríamos verbos correntes
nada de dizer dirimir emular estremecer fenecer
emanar
tu e eu e as coisas mais simples
o nosso café acevadado umas torradas bruscas toda a solidão da mesa
nós e a nossa narrativa
frases cambaleantes de que morremos um dia na estrada sinuosa da vida
comprarei o pão amanhã
não nos veremos nunca
eu esperar-te-ia com a mesa limpa as cadeiras próprias
prepararia a cozinha azul para ti
falaríamos desse passado prolixo dessas tuas mãos poeirentas como calcário
utilizaríamos verbos correntes
nada de dizer dirimir emular estremecer fenecer
emanar
tu e eu e as coisas mais simples
o nosso café acevadado umas torradas bruscas toda a solidão da mesa
nós e a nossa narrativa
frases cambaleantes de que morremos um dia na estrada sinuosa da vida
comprarei o pão amanhã
não nos veremos nunca
segunda-feira, 26 de abril de 2010
sábado, 17 de abril de 2010
sexta-feira, 9 de abril de 2010
quarta-feira, 7 de abril de 2010
quinta-feira, 11 de março de 2010
segunda-feira, 8 de março de 2010
Estudos de complexidade
Maia, meu capitão leva-me para os soldados de peito incólume que te seguem na
Construção social do meu imaginário
Vem redistribuir os obuses da paz que restaram de Abril
O que te posso narrar do presente é um despojo da esperança que nos deixaste
Ninguém merece a tua força pulmonar a tua coragem sanguínea
Ninguém nos vem salvar com a mesma veleidade que tu
Gostaria de conversar contigo deste mundo demiúrgico
Do homem máquina do homem computador do homem electrónico
Dos sons de carros do preço do crude
Das novas jurisdições pós-coloniais
De tudo um pouco que nos comporta e nos impulsiona
Mas não é tempo para política
É tempo para poesia
Para a expressão plena do Homem
Não sei se convoque novamente os capitães para a estrada fria da noite
Nem que seja para ser só eu o salvo
Maia, o meu problema não são as crises cíclicas do capitalismo
Não é a miséria a pobreza
O meu problema é a minha relação com o presente e com o futuro próximo
sempre cónico
Esse grito de dizer o que vai ser
Que clareira electrodinâmica electromagnética se vai abrir para a minha existência
O medo
Esse medo que está em todos os poemas do Al Berto
Que todos sentimos colectivamente
É só o tempo franco de fechar os olhos e construir filmes oníricos
De imaginar navios na neblina
Aviões
Corpos lustrosos que se acumulam sensitivamente nas casas abandonadas obliterados da dor do medo que portam dentro de si
É tudo o que tenho
Maia, volta em nome do poema Kírie
Volta para as instâncias da realidade
Para o presente das releituras históricas
Maia, meu capitão leva-me para os soldados de peito incólume que te seguem na
Construção social do meu imaginário
Vem redistribuir os obuses da paz que restaram de Abril
O que te posso narrar do presente é um despojo da esperança que nos deixaste
Ninguém merece a tua força pulmonar a tua coragem sanguínea
Ninguém nos vem salvar com a mesma veleidade que tu
Gostaria de conversar contigo deste mundo demiúrgico
Do homem máquina do homem computador do homem electrónico
Dos sons de carros do preço do crude
Das novas jurisdições pós-coloniais
De tudo um pouco que nos comporta e nos impulsiona
Mas não é tempo para política
É tempo para poesia
Para a expressão plena do Homem
Não sei se convoque novamente os capitães para a estrada fria da noite
Nem que seja para ser só eu o salvo
Maia, o meu problema não são as crises cíclicas do capitalismo
Não é a miséria a pobreza
O meu problema é a minha relação com o presente e com o futuro próximo
sempre cónico
Esse grito de dizer o que vai ser
Que clareira electrodinâmica electromagnética se vai abrir para a minha existência
O medo
Esse medo que está em todos os poemas do Al Berto
Que todos sentimos colectivamente
É só o tempo franco de fechar os olhos e construir filmes oníricos
De imaginar navios na neblina
Aviões
Corpos lustrosos que se acumulam sensitivamente nas casas abandonadas obliterados da dor do medo que portam dentro de si
É tudo o que tenho
Maia, volta em nome do poema Kírie
Volta para as instâncias da realidade
Para o presente das releituras históricas
terça-feira, 2 de março de 2010
Os balcões sucessivos sobre o rio
Os balcões sucessivos sobre o rio
as tesouras de poda nas roseiras
a sonolência lânguida e perversa
esse todo coerente e sobre ele apenas
a abóbada da minha perfeição
é esse o meu convite à desistência
a pena menos pública do mundo nos
lagos das finas flores dos sabugueiros
onde a mulher soltava os cabelos
pra que neles se prendesse o cheiro a erva
Ela tinha um aspecto inesperado
vinha com o vestido cor magenta nos
braços que lhe cresceram sobre a terra
movia-se ao andar como uma barca
Importa-me é o curso do dia e da noite
Vou andar um bocado nos caminhos
é pela hora em que não há ninguém
nudez desprevenida dos meus dias
mas só de noite desço até ao mar após
as sete horas da tarde hora crepuscular
os cheiros confortáveis e antigos
imagens dum lirismo fraudulento
um conforto algum tanto apreensivo
coisas que desde a infância a construíam
Mudo de opinião continuamente
espero o teu regresso pela tarde
e cuidadosamente velo a minha cólera
A vida é para mim pesar de pálpebras
leitura de discursos no outono
na casa abandonada e submetida à chuva
Regresso afinal aos próprios hábitos
sorrisos de mulheres sobre a areia
sou fiel à tristeza e pouco mais
e meto então um lenço num dos bolsos
que cheira ao perfume dos pinheiros
Ave de alarme sou deixem-me só
sou um contemporâneo assisto a tudo
os sinos vesperais nos dias de verão
o cão que passa numa encruzilhada
um cântaro que racha inexplicavelmente
confundido no hálito do mar
a minha saudação aos infantes do medo
crianças que iniciam o andar
Espero por alguém espero pelo sol
pla doçura estival da laranjeira
ando pelos caminhos muito tempo
e passo pelas portas devassadas pelos ventos
em cujos gonzos sopram agonias
E espero de novo a floração da primavera
Não quero nada quero estar presente sobre
as dunas do começo dos pinhais
nesse mundo de medos e animais
onde abri os meus olhos para a luz de agora
E perco todo eu em contriçães
ó terra branca e carnal e triste
as minhas madrugadas do sargaço
abertas nos bocejos da neblina
quando o tempo é suave e chega em dunas
à sensibilidade das narinas
nas horas generosas da maré
Ruy Belo
Despeço-me da Terra da Alegria
Todos os Poemas
Assírio & Alvim
2000
Os balcões sucessivos sobre o rio
as tesouras de poda nas roseiras
a sonolência lânguida e perversa
esse todo coerente e sobre ele apenas
a abóbada da minha perfeição
é esse o meu convite à desistência
a pena menos pública do mundo nos
lagos das finas flores dos sabugueiros
onde a mulher soltava os cabelos
pra que neles se prendesse o cheiro a erva
Ela tinha um aspecto inesperado
vinha com o vestido cor magenta nos
braços que lhe cresceram sobre a terra
movia-se ao andar como uma barca
Importa-me é o curso do dia e da noite
Vou andar um bocado nos caminhos
é pela hora em que não há ninguém
nudez desprevenida dos meus dias
mas só de noite desço até ao mar após
as sete horas da tarde hora crepuscular
os cheiros confortáveis e antigos
imagens dum lirismo fraudulento
um conforto algum tanto apreensivo
coisas que desde a infância a construíam
Mudo de opinião continuamente
espero o teu regresso pela tarde
e cuidadosamente velo a minha cólera
A vida é para mim pesar de pálpebras
leitura de discursos no outono
na casa abandonada e submetida à chuva
Regresso afinal aos próprios hábitos
sorrisos de mulheres sobre a areia
sou fiel à tristeza e pouco mais
e meto então um lenço num dos bolsos
que cheira ao perfume dos pinheiros
Ave de alarme sou deixem-me só
sou um contemporâneo assisto a tudo
os sinos vesperais nos dias de verão
o cão que passa numa encruzilhada
um cântaro que racha inexplicavelmente
confundido no hálito do mar
a minha saudação aos infantes do medo
crianças que iniciam o andar
Espero por alguém espero pelo sol
pla doçura estival da laranjeira
ando pelos caminhos muito tempo
e passo pelas portas devassadas pelos ventos
em cujos gonzos sopram agonias
E espero de novo a floração da primavera
Não quero nada quero estar presente sobre
as dunas do começo dos pinhais
nesse mundo de medos e animais
onde abri os meus olhos para a luz de agora
E perco todo eu em contriçães
ó terra branca e carnal e triste
as minhas madrugadas do sargaço
abertas nos bocejos da neblina
quando o tempo é suave e chega em dunas
à sensibilidade das narinas
nas horas generosas da maré
Ruy Belo
Despeço-me da Terra da Alegria
Todos os Poemas
Assírio & Alvim
2000
Se alguma coisa merece estátuas, homenagens, méritos, primeiras páginas de jornais é este fabuloso poema de Ruy Belo, autor tão esquecido por nós.
Nenhum outro poeta do cenário contemporâneo português teve esta capacidade de narrar o mundo com um ritmo tão profundo.
Ruy Belo é o homem de carne que fala dos sons, dos caminhos, do que nasce, do que cresce, do que se extingue. E que função mais importante pode aspirar um poeta?
Rendo-me a este verdadeiro tratado sobre o homem e sobre o mundo.
Nenhum outro poeta do cenário contemporâneo português teve esta capacidade de narrar o mundo com um ritmo tão profundo.
Ruy Belo é o homem de carne que fala dos sons, dos caminhos, do que nasce, do que cresce, do que se extingue. E que função mais importante pode aspirar um poeta?
Rendo-me a este verdadeiro tratado sobre o homem e sobre o mundo.
segunda-feira, 1 de março de 2010
se o poema surgir por todos os quadrantes da terra
poderei dizer uvas calcadas nos lagares de outrora
pés da história entropia mil vezes
Sangue a toda a hora a fluir nas veias
Já me tenho nas mãos no meu veludo interior
Não preciso de dizer nada
Não há nada para dizer
Que as praias comecem que se estendam nas paisagens
Que se acidentem os carros como tantas vezes dissemos
Cabo Espichel da minha vida
Grito na queda dessa falésia
Para que sul irei se nasci a norte
A norte da felicidade a norte das palavras
Em fome em dor
Parir para morrer
Quando te disse aquelas palavras de amor
Quando dois corpos se encolhem com tanto medo
E restam acolchoados um no outro
Há vento nos paredões sinto-o aqui em terra sem mar
O que dizer
Neguentropia mil vezes
Já me cansei das avenidas elásticas
Da multiculturalidade da transmorte
Do vazio
Todas as manhãs terão sol
Nunca te falarei no condicional
Para que lado dormir se a cada lado habita uma parede de ferro
poderei dizer uvas calcadas nos lagares de outrora
pés da história entropia mil vezes
Sangue a toda a hora a fluir nas veias
Já me tenho nas mãos no meu veludo interior
Não preciso de dizer nada
Não há nada para dizer
Que as praias comecem que se estendam nas paisagens
Que se acidentem os carros como tantas vezes dissemos
Cabo Espichel da minha vida
Grito na queda dessa falésia
Para que sul irei se nasci a norte
A norte da felicidade a norte das palavras
Em fome em dor
Parir para morrer
Quando te disse aquelas palavras de amor
Quando dois corpos se encolhem com tanto medo
E restam acolchoados um no outro
Há vento nos paredões sinto-o aqui em terra sem mar
O que dizer
Neguentropia mil vezes
Já me cansei das avenidas elásticas
Da multiculturalidade da transmorte
Do vazio
Todas as manhãs terão sol
Nunca te falarei no condicional
Para que lado dormir se a cada lado habita uma parede de ferro
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Mas onde estás quando pergunto onde estás
Em que pele encerras agora a tua boca
Continuo a habitar a casa branca
A selva antiga
À tua espera como Blimunda à espera de Baltasar
Onde estás quando pergunto onde estás
E mesmo que eu não acredite firmemente no amor
Ou em jangadas que atravessam rios de sangue
Onde estás quando pergunto onde estás
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