sábado, 29 de dezembro de 2007

Guardo nas gavetas enubladas de pó um punhado de beijos para ti. Engano-me com fome e cerejas.

Abre uma montanha para mim. Ecoa no seu silêncio o vazio do meu nome.

Uma criança irrompe pelo deserto imperfeito das pedras assimétricas. Tem no olhar, para além do sol árduo, a força de quem foge da brevidade da vida. Deve queimar o ar fustigado, a garganta seca de água e amor.
Comove-me a sua corrida de antílope - parece minha aquela fome. Pergunto-me pelo final da estrada e, rebuscado no emaranhado de sentidos, obtenho a única palavra possível: morte.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Alex Katz, September afternoon.


Kunsthaus Zürich:
Somos o traço flamejante de luz líquida que nos descreve a pele porosa e texturada. A tarde já passou e ainda há-de vir. Haverei de materializar a voz do meu olhar. Perceberás que o amor não se cerra no espaço circular do mundo, que o deserto não é mais do que a escultura transcendente do vazio interior do meu corpo

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007


Também eu queria a pele de poemas e sol

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007


Fernanda Fragateiro, Against the wall

É noite de natal e não tenho mais nada para fazer. Pudesse viver perto do mar como o Manel e esticava-me na janela para rever o som oblíquo do mar e ver a magnitude das ondas. Tenho apenas pela janela um horizonte de casas cuja arquitectura não gosto. Enclausuro-me no meu quarto – a janela cerrada. Não pactuo com o Natal, com o seu cinismo religioso e consumista.
Ofereço a mim próprio a imagem desta escultura. Tenho o mote perfeito para me procurar neste mundo de névoa e desconhecimento. Sim, o que constrói também destrói. Não haverá maior ambiguidade do que esta e a vida tão cheia de ambiguidades. E nem preciso de falar do mar, do vento, do fogo ou da terra. Posso dizer revólver. Sonho. Arte. Eu próprio que me destruí no amor e que no amor me reconstruo.
Ouço no sul da casa os convidados que chegam. O jantar deve estar pronto. As crianças gritam os brinquedos de felicidade e plástico. Desconhecem a metáfora dos seus actos nas minhas palavras. Os patriarcas exclamam: - todos para a mesa. Hesito em descer, quero subir as nuvens da última viagem.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Porque viajei efectivamente por países imensos esperançado na distância geográfica entre o pulsar do meu coração e o teu. Conheci montanhas brancas de tantas lágrimas transformadas em neve, cidades com rios e lugares onde o sol puro dos teus olhos não chega. Esbati-me no cansaço. O albergue passageiro onde dormia o sono justo, a cama impessoal onde depositei o meu corpo e os meus sonhos. Tantos rostos de multidão clareados pela luz, por vezes, insuficiente. Como comunicamos com palavras não maternas e até em beijos artificiais nos lugares sem recantos. O mundo pautado pela diferença, pela diversidade e eu na minha alteridade sempre pronto a aceitar o que nunca aceitei em ti. Cada sítio tem uma intensidade de vento diferente. Uma casa com a alma dos próprios homens locais. A imagem do teu rosto que me acompanhou por todos os lugares. Eu que me julgava longínquo.

As janelas que suportam sempre a ventania.

Nobuyoshi Araki, Untitled from Erotos, 1993

A necessidade de ser no teu corpo a primavera indulgente. A beleza das fragas, que vejo, no labirinto harmonioso dos teus lábios. O epicentro que deflagra das tuas mãos

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Quando o desespero agudiza e as nuvens vindas do sul trazem lágrimas abraçadas às rajadas de chuva que inundam o meu coração Quando na loucura de dor perco a jangada que me tem mantido à tona da água

Porque o espaço de infelicidade dentro de mim assume contornos incomensuráveis

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

notas para o diário

deus tem que ser substituído rapidamente por poe-
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.

é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.

Al-Berto Horto de IncêndioAssírio & Alvim3ª edição - Dezembro 2000

Texto sem sentido de amor sentido

O momento é violência, cadência, vento breve, um jardim por florescer. Já não tenho momentos contigo. Só comigo. Fantasmas, homens ensanguentados, mulheres velhas, lobos, pianos é tudo o que tenho. As horas são heresias e o pecado de te amar é omnipresente. Comparo os teus olhos com os cães vadios, as moscas, os latões do lixo, os sacos plásticos, com o mar, sim, com o mar pleno de sonhos. Não há nenhum piano no mar apenas a música espessa das ondas. Beijo-te a boca pelo computador nas imagens que me restam. O ecrã excitado. Preciso do sonho para viver porque preciso de ti e não te tenho. Cataclismos, tempestades abruptas, revoluções, desastres onde a morte me levasse.

Poderá a vida frustrar-me na sua metafísica indecifrável mas enquanto me restar este amor nas veias e no coração em incêndio, enquanto eu acreditar que não estou louco vou sonhar, vou consumir-te o corpo de amor

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Luzerna, Suíça

porque me fazes falta todos os dias, porque te persigo e te procuro em todas as coisas
mesmo nos rostos que não são teus

domingo, 16 de dezembro de 2007

Navarro Vives, Atmosfera
Descoberta de Veneza

Porque fecho os olhos e por vezes parece que a neblina te atravessa. Ficas esparsa no horizonte de luz. Mas reconheço-te sempre. Sei distinguir-te. Conheço de cor os traços do teu rosto

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Visp:

A noite encerra-me num silêncio desmedido trazido pela montanha. Sem o mar, a uma distância próxima, a minha saliva ondula à procura de barcos que te transportem. Tu não vens, alias, tu nunca vens. Proporcionas-me os rebordos materiais desta espera. São porcelanas e vidros húmidos de líquidos, são pedaços de segundos que engulo no olhar.
Queria que tudo ardesse e até mesmo a neve. Uma avalanche que destruísse a aldeia. Gritos de sofrimento por toda a parte. Para quê a natureza mais incomensurável se tu natureza simples não vens e não me desmoronas no frio desta cama quente. Para quê se tu não vens e não me incendeias de amor. Para quê se tu não vens e não me abres uma montanha no coração

Salvador Dalí, "sonho causado pelo voo de abelha a volta de uma romã um segundo antes de acordar"

Desmonto o sonho da noite anterior em pedaços que se perdem pela casa toda. Poderia reconstruir-te dessas peças. Mas não, hoje ficarás relegada para outro plano. Ficarei concentrado nas enormes montanhas de neve que me preenchem os olhos.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Beatriz Batarda

Um gigantesco incêndio deflagra-se na sombra da minha pele - perdi-me no fogo dos teus olhos.
Amo-te Beatriz (trazes-me a recordação demasiado real de outro rosto).

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome na suas curvas claras.

Dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

Eugenio de Andrade - as palavras interditas

Há um incêndio qualquer neste silêncio. A tranquilidade desvaneceu-se. Tudo se tornou irrespirável e doloroso. As gaivotas já não partem do teu coração e já não me trazem a visão benigna e ampla do mar. Os seus voos a pique não circunscrevem o peixe amedrontado. Sou eu, agora, o circunscrito – confinado à implosão interior do sofrimento.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Cig Harvey

Experimenta abrir-me. Verás tudo aquilo que não cabe nos teus sonhos.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Otto Griebel, "A Internacional"


Protesto contra ti mesmo estando apaixonado pela Beatriz Batarda

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Beatriz Batarda em “a Costa dos Murmúrios”

Murmuraste-me âmbar e as palavras luminosas espalharam-se pelo meu rosto simples. Continuei deitado no meu sofá de silêncio amparado pela luz e pelo lugar equidistante que me trazias. Fui também um militar em África – não derrotei o sol. Fui também o teu rosto a lembrar-me outro rosto. Apeteceu-me entrar pelo ecrã e violentamente ser a chuva que te beijou os lábios rugosos. Pudesse eu ter sentido a textura dos teus lábios. Percorreria cada espaço de pele côncava, percorreria cada espaço de pele convexa. Não te perdoo a infidelidade, não pela heresia mas pela promessa que lhe fizeste. Os corpos são promessas.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Promessa

Não cabe mais ninguém nos meus poemas.
Agora serei só eu e as minhas romãs
e os meus mestres espalhados pelos arrozais.
No meu poema só os crisântemos
vestidos de crisântemos
só a sombra dos homens despidos de homens.
Os amantes que fiquem cá fora
nesta casa sem tecto na lama
deste meu corpo.

Catarina Nunes, "Prefloração"

Quando as letras voam as palavras resistem-me apenas na voz. Digo o teu nome vezes sem conta.

Repito-o com o coração a arder

segunda-feira, 19 de novembro de 2007


Hoje não me apetece publicar nada. Apetece-me ficar amparado pela imobilidade da cama. Fechar os olhos bem fundo, reconstruir um mundo onírico onde não se distinga a realidade da imaginação.

Pedro Cabrita Reis, "Longer journeys"

Respiro-te como se de oxigénio se tratasse

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Robert Indiana, "Love"

Dá-me uma proximidade que não tenho. Desconstrói a fome, a sede. Reinventa-me. Refaz-me.
Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos

Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.

Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.

Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a cólera que me leva
aos precipícios de agosto, e a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.
Cada dia é um abismo atómico.

E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Bate em mim cada pancada do pedreiro
que talha no calcário a rosa congenital.
A carne, asfixiam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.


Herberto Helder
Cobra
Poesia Toda
Assírio & Alvim
1979

Também o sofrimento gravado nas mãos de memória foi surreal. Também o mar se despenhou pelos céus e a minha boca silente sem afagos teus

Preenche-me se fores capaz

quarta-feira, 14 de novembro de 2007


Eugénio de Andrade - "As mãos e os frutos"

Este é, para mim, a par com a “Mensagem” o melhor livro da poesia portuguesa.

domingo, 11 de novembro de 2007

"A vida é bela"
Frida kahlo, "As duas Fridas"


Quem sou eu para além desta massa corpórea que come, defeca, urina, dorme e respira? Precisarei, eu, do teu calor, da tua magnitude?

domingo, 4 de novembro de 2007

o sol vai apagar-se e o
universo implodir. só por isso
hesito em escrever poesia, três
minutos antes de a maré encher

deito o corpo, invento asas,
passei a idade de tudo o que
há-de vir

valter hugo mãe

Provavelmente explodiremos e tudo o que se fez poderá nunca ser lembrado. Evitem-se, então, os dramas individuais ou os trágicos sofrimentos. A solução será interpretar à letra a filosofia de vida de Ricardo Reis e no seu epicurismo esperarmos tranquilamente pela morte, pelo fim inevitável.

sábado, 3 de novembro de 2007

André Santos

Nómada ainda e a casa às costas à procura dos frutos e da carne sagrada dos animais. Soube plantar um dia, soube domesticar os animais sagrados e a casa agora estática – sedentário. A casa não suprime necessidades primordiais de vida, é a vagina onde o espaço da alma se propaga.

Claude Monet

Poderia pegar num papel e colocar-te – extravagante - sobre a repetição das ondas ou sobre uma qualquer praia - eloquente - deste Outono. Mas não. Hoje ficarás aqui no imenso pé direito da minha casa. Quero que partilhes comigo a solidão destes dias somados sem resultado final.

Perceberás todo o Inverno em redor de mim.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Goya, "Fogo Nocturno"


Escuridão pelos dedos, pelos braços e até as palavras, negras, não encetam claridade. Caminhamos como civilização podre para o abismo. Um abismo tão perceptível como os teus lábios que eu não tenho.

- Explodiremos e seremos simplesmente nada

sábado, 27 de outubro de 2007

(não sei quem tirou a foto mas teve arte. A Marta está deliciosa. Não sei que no que estava a pensar. De certeza que concretizou esse pensamento)

Eu, tu e deus

Olho para o enfim, para os confins. Procuro-te no espaço e no tempo – vectores primordiais da vida. Obstinados, ainda, os meus olhos na procura

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Gustav Klimt

Em redor do meu corpo há barreiras, persianas, paredes, jaulas e montanhas. Não me consigo ver pelo outro lado. Queria tanto ver-me pela perspectiva com que tu me vês.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Agora é diferente
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro

Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor

Já não arranjamos vagar
para o amor agora
isto vai devagar
isto agora demora

Manuel António Pina
Poesia Reunida


Versos do olhar de um idoso para a sua mulher

Não te vejo a libido de outrora. Não sinto a detonação do mar, do vento, da própria terra em ascensão. O meu pénis levitava e éramos, banalmente, um só. A tua boca tinha estrelas e no teu rosto pleno encontrava o céu – primazia de luz. No inverno guardava-te a mão ao frio e o gelo era o motivo perfeito para, na demora do acordar, confrontar o meu perfil com o teu.

Fomos, assim, alados pelo fio que nos puxa para o tempo em sucessão. Hoje permaneço no teu corpo em maior sossego. Não te digo palavras de amor. Tu, também, já não precisas. Basta-nos a simplicidade de no horizonte do olhar nos encontrarmos um ao outro.
Doris Salcedo, "Shibboleth"


És uma ferida que se vai fechar na espiral do tempo. Lembrar-me-ei de ti na cicatriz espessa por todo o meu corpo. Uma marca do teu corpo quente sobre o meu

domingo, 21 de outubro de 2007


Eugène Delacroix - "La liberté guidant le peuple"



Nem só de lirismo ou de artes se faz o mundo. Alias, a base de qualquer expressão artística, seja ela de que modo for, deverá ter uma forte conceptualização inerente ao pensamento de quem a produz. Este facto, por si só concede, aquilo que é vital para o valor artístico – a moralidade da própria obra de arte. E o pensamento de quem produz poderá ser a sua percepção política, a sua cultura, a sua consciência social ou o seu processo lato educacional. Será, por fim, funcionando como um catalisador, o seu poder reflexivo o agente responsável pelo despoletar da obra de arte e pela sua qualidade.


Portanto, para mim, sem presunções artísticas, penso ser importante neste espaço, para além de demonstrar obras de arte, opinar acerca de tudo aquilo que condiciona a, própria, obra de arte.

sábado, 20 de outubro de 2007

Cresci numa casa deserta de riquezas e comodidades. Cómodos simples ajustados ao tamanho das minhas pernas mas não às enormes pernas do meu irmão ou ao coração ainda maior do meu pai. As paredes sem cor revelavam já, desde aquele tempo, o cinzento que predomina ainda hoje dentro de mim. Havia uma coisa invulgar e antagónica a toda a realidade. Uma vista privilegiada, por ordem lógica, para um aglomerado de casas e depois para o horizonte. Cresci a ver o sol levantar-se e pôr-se sobre as casas. Se fechar os olhos consigo recordar cada pormenor.
Um dia mudei-me para uma casa maior. Grande, enorme mas não pude trazer o horizonte comigo. Pensei que tudo tinha ficado na mesma. Tinha casa e não tinha horizonte. A pobreza continuava a mesma. Ser rico significava ter tudo.
De repente, na celeridade dos solstícios que não via, as pernas cresceram, os braços cresceram, a boca sentiu necessidades de amor e com todas estas mudanças a perspectiva do olhar mudou. Comecei a sentir-me insuficiente. O horizonte do meu corpo não tinha a dimensão do horizonte da minha casa pobre.
Comecei, lentamente e progressivamente, a observar a sociedade em que me inseria. Fui ganhando consciência de como tudo se processa. Descobri o significado de socialismo e de capitalismo, mais tarde de Marxismo. Entre conhecimentos e conhecimentos aprendidos no auto-didactismo e na teoria dos cursos inventados para alienar, descobri uma certeza, para já inabalável, de que a salvação da civilização humana está numa educação para o altruísmo.
Deveria ser astuto e procurar a estabilidade, a resignação, a estagnação. No entanto, há uma raiz daquele horizonte que prolifera dentro de mim. Luto todos os dias contra mim próprio, contra aqueles que são os meus instintos básicos e também, porque sou filho de uma cultura, contra a minha própria educação. Não me posso corromper, não posso virar costas a uma sociedade que por legado também é minha. Sinto, conscientemente, que não tenho a força necessária para a transformar.
Peço desculpa mas esta analepse é necessária. Numa aula qualquer de Liceu vi um filme cujo nome não me lembro. Sei que contava a história de um homem que plantava árvores numa zona árida, quase como se fosse um deserto. A glória do seu gesto, da sua persistência, da sua convicção repercutiram-se num jardim único onde a vida e a harmonia reinavam.
Todos os dias, contrariando a lógica, contrariando a minha própria consciência, tento semear nos meus alunos o altruísmo para que um dia o mundo seja um jardim de seres humanos e na harmonia do respeito pelas liberdades fundamentais possamos viver de um forma, efectivamente, digna.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007



(Vi algo de novo, ontem)

Deflagraste-te. Iluminaste-me e há tanto tempo eu não me via com tanta claridade.
Joana Vasconcelos, Bienal de Veneza

Somos da terra - a porção de chão que pisamos. Há quem diga equilíbrio, sustentação. Digo-vos realidade por onde todos os sonhos de fundamentam.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

As palavras estão vácuas. Desidratadas. Precisam de uma consulta hospitalar de urgência.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Patricia Piccinini, "The young family"



Tremendamente frágeis porque, somos só corpos à espera de calor. Um calor que muita vezes não chega. E o vento é tão frio

Plano

Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.

Nuno Júdice


Perpasso o silêncio e encontro, novamente, outro silêncio. Este desígnio repete-se todos os dias.

domingo, 14 de outubro de 2007

Uma mistura de drama e comédia num filme, excelente, sobre uma família, profundamente, socialista numa R.D.A. (República Democrática da Alemanha) que vive as tranformações da queda do muro de Berlim.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Caminho sem pés e sem sonhos

Caminho sem pés e sem sonhos
só com a respiração e a cadência
da muda passagem dos sopros
caminho como um remo que se afunda.

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes
para que a elevação e a profundidade se conjuguem.
avanço sem jugo e ando longe

de caminhar sobre as águas do céu.

Daniel Faria
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)

Não te quero dizer versos escondidos em prosa. Muito menos, esconder que neste silêncio espesso só encontro a tua ausência. Sabes bem dos sonhos, como modelam a minha vida. Estas metáforas, estas anáforas são a tentativa de recriar um espaço onírico onde possa repor toda a verdade da minha vida.
Is legal sex anal?, Is anal sex legal?, 1998
Tracey Emin


Aperto-te com toda a força. Quero entupir-te de dor, de prazer. Sinto-me dentro de ti, irreverente, na perseguição do momento em que tudo explode e em que os lábios se trincam, vorazmente, à procura do mar

Nobuyoshi Araki
Extrait de la série Erotos, 1993

Poderia confundir os teus olhos com a tua vagina. Exotismos não lhes faltam.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Na infeliz data de 2 de Outubro de 1992, uma rebelião levada a cabo por presidiários do pavilhão 9 da Casa de Detenção do Carandiru, foi sustida violentamente pelas tropas da Polícia Militar e originou uma das maiores chacinas da história das penitenciárias brasileiras.

O filme conta com grandes actores e consegue demonstrar e elucidar o espectador de toda a complexa organização social estabelecida entre os presos.
Vestígios


noutros tempos

quando acreditávamos na existência da lua

foi-nos possível escrever poemas e

envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído

pelas salivas proibidas - noutros tempos

os dias corriam com a água e limpavam

os líquenes das imundas máscaras



hoje

nenhuma palavra pode ser escrita

nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras

ou se expande pelo corpo estendido

no quarto do zinabre e do álcool - pernoita-se



onde se pode - num vocabulário reduzido e

obcessivo - até que o relâmpago fulmine a língua

e nada mais se consiga ouvir



apesar de tudo

continuamos e repetir os gestos e a beber

a serenidade da seiva - vamos pela febre

dos cedros acima - até que tocamos o místico

arbusto estelar

e

o mistério da luz fustiga-nos os olhos

numa euforia torrencial


Al-Berto
Horto de Incêndio


Foram fogo, para mim, as tuas palavras. Fonte de luz, em suma.
Hoje, sem a tua luz, sou um necrotério. Tu sabes. Sentes o cheiro das coisas mortas.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Roubei a Fotografia à Graça. (Desculpa)

“Ser poeta não é uma ambição minha/É a minha maneira de estar sozinho”
Alberto Caeiro, O guardador de rebanhos.

Por vezes, percebemos que não conhecemos o nosso corpo. A ambiguidade da alma, a sua múltipla forma de ser, atravessa-nos os lábios já cortados pela indecisão, e no desconhecimento quase profundo confundimos o nosso futuro, o nosso passado.
Somos diferentes e iguais todos os dias.
A casa onde às vezes regresso é tão distante

A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar, durmo ao lado do meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração

José Tolentino Mendonça
A Que Distância Deixaste o Coração

Ouço o mar distante. Deixo-me embalar pelas suas palavras codificadas. Enternecedoras. És a casa que encontro quando me perco.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Mummy Ahmadu and Mallam Mantari Lamal with Mainasara, Abuja, Nigeria 2005
Pieter Hugo, THE HYENA & OTHER MEN


Não me perguntem porquê, mas esta foto amedronta-me. Não tem monstros, nem dinossauros, nem corpos mutilados ou em aparente sofrimento, no entanto, demonstra-nos uma virilidade tão assustadora, tão real.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

A Vagina

É cálida flor
E trópica mansamente
De leite entreaberta às tuas
Mãos

Feltro das pétalas que por dentro
Tem o felpo das pálpebras
Da língua a lentidão

Guelra do corpo
Pulmão que não respira

Dobada em muco
Tecida em água

Flor carnívora voraz do próprio
suco
No ventre entorpecida
Nas pernas sequestrada

Maria Teresa Horta


Porque foste génese
Inicio fulgurante do meu mundo – lugar incomensurável onde tudo nasce

Ruben Almeida, STOP.


(Estive num hospital e todo o sofrimento humano me entrou pelas narinas, pelos olhos, pelos ouvidos…)

Precisamos de parar com todo este sofrimento, com esta dor que se instala na nossa falta de compaixão

O sangue escorre já a uma velocidade estonteante

E os corpos sucumbidos esperam a ordem para o último suspiro

Jorge Casais, paisagem de sonho.


Porque te digo deste sítio que não está em consonância comigo. Porque me relembro que o teu corpo também é um espaço

- Um espaço em profusão

sábado, 6 de outubro de 2007

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O’Neill


Porque está frio - um frio plural de Outono. E sinto necessidade do calor de outro corpo nas minhas arestas por definir. Um corpo que brote palavras oníricas

É um filme germânico que conta a história de uma experiencia científica levada a cabo em seres humanos.

Inspirado em factos verídicos, “ A Experiência” é um óptimo filme.


quinta-feira, 4 de outubro de 2007

O racionalismo hoje não existe. Hoje é dia de empirismo.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Andy Warhol, Marilyn Monroe.

Comentário Pop

Todas aquelas super modelos em acção são algo que causa danos na sanidade de qualquer homem. E penso: até o mais avesso a mulheres, não pode ficar indiferente. Elas desfilam esbeltas e com a aquela atitude poderosa e confiante de que deixam tudo arrasado. Heidi klum, Adriana Lima, Naomi Campbell, Karolina Kurkova (Ai, Karolina esse sorriso!), Gisele Bundchen, Tyra Banks, Selita Ebanks e Izabel Goulart estão, sem dúvida, no top twenty das mulheres mais bonitas do mundo. São assim os desfiles de Victoria’s Secret!

No entanto, com as tuas imperfeições, com esse teu ar petulante, preferia-te a ti.
Uma grande caracterização, um grande argumento e um grande filme.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

És um raio de luz

és um raio de luz
na minha vida
um pequeno e bom raio de luz
na minha vida
e essa luz clara e branca que tens,
é que ilumina
todos os passos que me levam até ti

és mais quente que o sol
quando amanhece
brilhas mais do que as estrelas do céu
quando anoitece
e esse raio de luz que tu és
nunca se esquece
de iluminar cada momento para mim

abraçar-te por fim
por muitos anos
devolvendo à realidade o que sonhámos
desejava dedicar-me assim
por muitos anos
e nunca mais renunciar a este amor

deixa-me ser como tu
um raio de luz ardente
deixa-me ser como tu és
luz e Amor somente

eu queria ser como tu
e abraçar-te contente
numa só esfera de luz
eternamente presente


Pedro Ayres de Magalhães, Madredeus.

- Porque foi o primeiro poema que me declamaste e não me esqueço
Mais um grande livro do Neo-realismo português.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

a cadeira está vazia, um corpo ausente
não aquece a madeira que lhe dá forma

e não ouço o recado que me quiseste dar
nem a tua voz forte que grita meninos
na hora de acordar
ouço o teu abraço, no corredor em gaia
e os olhos molhados pela inusitada despedida

o sol foge
mas o crepúsculo desenha a sombra que
tenho colada aos pés
ou o espelho, coberto com a tua face

pai, digo-te
a minha sombra és tu

Jorge Reis-Sá, “A Palavra no Cimo das Águas”


O meu pai é o pedaço de tempo mais valioso
Mais desmedido. Em todos os recantos de luz sobrevive-lhe
O sorriso, os braços onde o meu próprio tempo se construiu
Paula Rego, "Sem título"


Abortei o teu corpo. Saiu pela uretra, pela garganta, pelos olhos
e por isso o meu ventre vácuo. Ironicamente, não aborto a dor – este mar que explode todos os dias dentro de mim

domingo, 30 de setembro de 2007

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

Cecília Meireles

Tenho-te a dizer destes primeiros dias de Outono. A chuva enrolada no vento como se amantes, fossem. Um frio terno que encolhe os corpos. Alias, todas as pessoas mais pequenas nas ruas desertas de ti. Também, muito frio em mim, nas arestas dos meus lábios. Do vazio já sabes – impertinente e efectivo. Possivelmente, ausência do teu abraço quente, da combustão do teu corpo aberto sobre o meu.
No Outono que é este Outono senti, por que te tenho de dizer, os carros a despenharem-se num abismo e o mar a inverter-se a caminho das fontes. Tenho frio. Metafóricas, estas visões, Meu Amor. Entretanto, diluí o sofrimento num copo de água e não me tenho sentido mal. Apenas frio.
Tenho-te a dizer, por fim, que trinquei o mar e saboreei-te inesperadamente

Quando o sofrimento dos outros nos desperta para o comunismo e consequente revolução.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Os limites já não existem. Os teus beijos extravasaram-nos.

Sinto-os incomensuráveis ainda,

Nos combóios onde viajas nos teus sonhos.

Écloga

Sonhei
contigo embora nenhum sonho
possa ter habitantes, tu a quem chamo
amor, cada ano pudesse trazer
um pouco mais de convicção a
esta palavra. É verdade o sonho
poderá ter feito com que, nesta
rarefacção de ambos, a tua presença se
impusesse - como se cada gesto
do poema te restituísse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus
lábios com o rebordo desta chávena
de café já frio. Então, bebo-o
de um trago o mesmo se pode fazer
ao amor, quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço -
terra, água, nuvens, rios e
o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência
das fontes. É isto, porém, que
faz com que a solidão não seja mais
do que um lugar comum saber
que existes, aí, e estar contigo
mesmo que só o silêncio me
responda quando, uma vez mais
te chamo.

Nuno Júdice

A janela está fechada. A luz não me chega. Derramo todo o meu sangue nas paredes brancas.

A história comovente de dois adolescentes que encontram na auto-mutilação uma solução para a sua intensa dor interior.

Hoje não estou. Amanhã não estarei. Ontem não estive.

Fechei para obras.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Roubei esta fotografia ao Manel. Queria dizer-lhe como o invejo por ter vista para o mar.
Van Gogh, "Jardim dos poetas"

Como Inumano tenho vista privilegiada para o jardim onde a Sophia, o Eugénio, o Ruy Belo, o Fernando Pessoa, o Alexandre O’Neill, o António Gedeão, o Miguel Torga, o Ary dos Santos, conversam ao final da tarde.