quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
lamento a vida, a obsessiva curiosidade, as balas que não furam os corpos
esse sémen criminoso que procria
relembrem aqueles dias sobre o quarto cinzentos pretos negros onde queremos morrer
porque simplesmente não fazemos sentido
porque não correspondemos aos idílios da nossa cultura
- a mulher vaga dos sonhos não está estendida na nossa cama pronta para a explosão sensorial
relembrem a dor inexplicável do abandono, da rejeição, da inferioridade
nas casas espalhadas pelo silêncio
assumo a ideia de suicídio colectivo a morte em massa
uma redenção uma paz ubíqua por todo o corpo
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
onde as esponjas desgarradas viabilizam o
desapossamento das minúsculas escarpas
como um ascensor de areia agarrado á guitarra das ondas
renovando as imperfeições das algibeiras no calor cilíndrico das
grinaldas
e tudo se explica
quando as possibilidades da argila ficam exaustas nas introspecções da
pele
quando a solenidade permanente de um fio musgoso
derruba ansiosamente as contradições
dum lugar virginal
e tudo se explica
quando se corrompe a ourivesaria vegetal do poema no derrame nítido
dos teus ombros
como um gosto de frutos desalojados
que irradiam imperceptivelmente
nos exames puros das espontâneas fissuras
As constelações regressam lentíssimas ao centro da rama lavrada
pedindo uma parcela de mar eu tu aqui na confidência do cais
desatando as vocações das ervas transparentes nas instâncias das mãos
para agitar as coincidências das bocas
na turgescência dos seios e os
membros suscitam os conceitos sonâmbulos da claridade
ao identificarem a transmudação do desejo
Luís Serguilha, “Embarcações”
sábado, 11 de outubro de 2008
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
sexta-feira, 18 de julho de 2008
Delírios de um adolescente na hora do suicídio
O vento rarefeito propaga-se pelo espaço que me contém. Não te contarei deste caminho que me leva à morte. Não me adiarei nesta vida incongruente porque a minha alma é volátil demais para esta crueza em que se define a liberdade. Podem trazer-me o mar pleno e a brisa que o acompanha. Podem trazer-me as cores mais belas e uma manhã de domingo em que os pais embalam os triciclos dos filhos pelas marginais. Não sucumbirei à vontade de viver, á vontade de conquistar o arco-íris.
Eu que nunca me despedi de ninguém. Engolir este último pedaço de ar e sentir o cheiro húmido da terra não vai doer. A realidade é a morte.
quinta-feira, 3 de julho de 2008
quinta-feira, 26 de junho de 2008
| A única resposta |
| Jantáramos os dois pela primeira vez: amizade ou amor, pouco interessava desde que alí estivesses. O meu mundo ia mudando à medida do teu, a cada gesto vão da vã conversa antes que fôssemos pIo Bairro Alto e enfim o Lumiar, a tua casa. Eu podia contar uma história, dizer como aquele rosto atravessava o meu -mas não, «nada de narrativas, nunca mais». Apenas a certeza de estar morto há tanto tempo, que já não me lembro de cor nenhuma dos teus olhos. Não, já não existe o dia nem a noite e este silêncio deve ser talvez a única resposta. É bem melhor ficar à espera de que não regresses. Fernando Pinto do Amaral A Escada de Jacob Assírio & Alvim Não te consigo dizer nada. Estou árido de imagens e vento. |
terça-feira, 10 de junho de 2008
domingo, 8 de junho de 2008
sexta-feira, 6 de junho de 2008
quarta-feira, 4 de junho de 2008
segunda-feira, 2 de junho de 2008
terça-feira, 27 de maio de 2008
sábado, 17 de maio de 2008
Chego a casa. Subo as escadas substancialmente. O cansaço das pernas ressoa no barulho que prolifera pelo enorme pé direito. A porta está entreaberta. Reconheço a intensidade de luz que emerge. Entro no quarto. Constato que está desarrumado. Discos como diz o meu pai no chão, cama por fazer, roupa suja no chão, o computador ligado e o programa de gestão de música a brotar um músico qualquer que tem o dom de tocar piano. Fico estático. Apetece-me dançar suavemente e sozinho mas tenho vergonha de mim mesmo. Fico contraído. Reparo novamente no quarto. Não há nada que me exalte. Releio-o um poema pessoal cravado na parede. Contemplo o vermelho do cenário. Olho para um livro escondido na prateleira da secretária. Pego-lhe. Sento-me no sofá. Abro-o numa parte chamada de As Palavras Interditas. Leio-o o primeiro poema. O segundo. O terceiro. O décimo. De repente olho para a janela. Reparo na constante mudança de intensidade de luz. Elaboro uma piada execrável: o sol está a falar comigo. Levanto-me do sofá. Arrependo-me de mim. Penso em borboletas e em colibris. O piano toma-me. Começo a dançar de olhos fechados. Ocorrem-me imagens várias. Aumento o volume. Apetece-me explodir. Danço com mais intensidade. O suor já cai. Estou abraçado ao silêncio interior. A beleza da música molda-me. Acho-me imortal. Cai-o perpetuado na cama. Dispo-me. Atiro os lençóis da cama para o chão. Empurro a cómoda. Desarrumo ainda mais. Peço a Deus, cuja existência não acredito, que me leve para junto dele. Que me nomeie arrumador de carros no paraíso. Presumo que todos os carros sejam híbridos. A luz dissipa-se levemente. Relembro a toada dos teus beijos. Apetece-me viajar. Conhecer o mundo. Cravar no peito lembranças para que a nostalgia na hora da morte intensifique a despedida. Prometo nunca mais falar em morte. Basta-me estes devaneios à maneira do Ruy Belo. Eu que um dia já sonhei em ser poeta. Espero pelo nada. Talvez saia esta noite. Talvez jante em casa. Espero pelo nada. Deixo o tempo correr. O tempo é um rio dizem todos os poetas. Tenho imenso pêlos. Merda de velhice. Se os cortar volto a ser criança. Volto a jogar futebol com o André Mendes. Volto a jogar ao quarto escuro com a Claudiana. No próximo ano vou estar em Paris. Ou no Rio de Janeiro. Ou em Évora. Ou no Pão de Açúcar em Santo Tirso. Mudo de álbum. Ponho um ainda mais triste. Imagino-me no Leblon. O mar com montanhas. Chuva a cair sobre a janela. Eu nostálgico e superior. Ponho o volume no máximo. O som fica menos perfeito. Relembro Paris. Certos odores. O Trocadero. Todo aquele Neo-clássico. A Arte nova. A chuva que caiu numa tarde de Agosto. Salto em cima da cama. Quero que ela parta. Quero que este quarto fique como a fotografia destroyed room do Jeff Wall. Penso em tudo e tudo me confunde. Para quê a harmonia? A beleza das coisas? Vejo-me destruído por dentro. Desarrumado. Não sou poeta. Não tenho ninguém para dançar comigo. Só o silêncio desmedido que rumina no interior. Só. Decido-me. Fecho a janela e a porta. Destruo a luz. Embrulho-me nos lençóis. Enrolo-me. Medito. Cerro os olhos na esperança de que o sono me traga um sonho. Outra realidade que não a maça sobre a janela da Sophia. Espero. Espero. Espero eternamente.
quarta-feira, 14 de maio de 2008
Pequena Reflexão
segunda-feira, 12 de maio de 2008
quarta-feira, 23 de abril de 2008
quarta-feira, 16 de abril de 2008
terça-feira, 15 de abril de 2008
arrombei as janelas fechei a porta abri gavetas caixas de pandora remexi fundo na dor nas palavras de água que restaram pelos papeis como foi duro deparar-me com o passado novamente reflectir em vão o tempo a minha incompreensão
já foi tudo tão diferente a casa os corpos ao meu redor o meu próprio corpo os meus sonhos os meus temores e até o mar se alongou na distância por ventura a bruma me oculta a visão
sobre o quarto destroçado eu que pensava ser tão diminuto vi a minha vida espalmada pensei muito as lágrimas fundas pelo coração interiores
seremos memória somente
segunda-feira, 14 de abril de 2008
terça-feira, 8 de abril de 2008
sobre a confusão do tempo um grito imprimido do teu silêncio abriu uma brecha de nuvens e esperanças a desordem dos rios e dos ribeiros do sangue marfim esconjurou-se no interior do meu corpo algum complexo titânico irá nascer
talvez o amor
domingo, 6 de abril de 2008
O inferno, aqui. Deve ser normal.
Um choro de criança, no andar
de cima, sobrepõe-se à música
que não ouço e que é talvez de Brel
(nenhum quarteto de Mozart serviria agora
Há dias assim. Os guindastes
da insónia não seguram a voz, desastre
anunciado pela teimosia de pássaros
suburbanos. Coisas de muito esquecer,
se eu pudesse. Mas o corpo hesita,
volta a ser o envelope vazio
de um destino por assinar - e que
nada tem, neste momento, de «literário»,
Sinto a luz na garganta, sufoco
discretamente, alheio ao excesso .
de imagens que me traz o dia. ,
A alegria, se quiserem, fica para mais
tarde. Aqui, de novo, morre-se muito mal
Manuel de Freitas
[SIC]
poesia inédita portuguesa
Assírio & Alvim
não manuseio o tempo. tenho medo do futuro e de nuvens cinzentas.
sábado, 5 de abril de 2008
Parte II de um momento
partiste e todo o tempo se rasgou em pedaços pelo chão restei eu esquartejado na agudeza da noite tombado sobre os lençóis com teu cheiro lancinante
Parte I de um momento
ver-te-ei chegar por entre o tempo branco e solene pronta para redefinires em suspiros a lógica desta conjunção
segunda-feira, 31 de março de 2008
porque a poesia do Eugénio é o paradigma da beleza
porque tu eras a génese de todos os silêncios
em mais nenhum corpo encontrei os poemas do Eugénio
só no teu
sexta-feira, 28 de março de 2008
quinta-feira, 27 de março de 2008
segunda-feira, 24 de março de 2008
domingo, 23 de março de 2008
sábado, 22 de março de 2008
quinta-feira, 20 de março de 2008
sábado, 15 de março de 2008
Pedido simples
Despe-me com a integridade das tuas palavras
Abre-me o corpo
Deposita-te em mim celeste e sublime
Materializa-me toda a felicidade
quinta-feira, 13 de março de 2008
quarta-feira, 12 de março de 2008
segunda-feira, 10 de março de 2008
Promessa
se me disseres que dentro de ti nos lugares mais fundos existe um deserto árduo para meu deleite
eu prometo-te na violência das manhãs ser um corpo supremo de amor
domingo, 9 de março de 2008
Imperativos
quinta-feira, 6 de março de 2008
domingo, 2 de março de 2008
porque, ontem, dormi numa cidade de mar
Acredita na violência da beleza do mar, no seu aroma de elemento puro e tem fé no horizonte imposto porque, amanhã, nesse preconizar do futuro, só te restará, nos escombros da memória, o corpo que, outrora amordaçado contra o teu, foi um barco perfeito de silêncios
sábado, 1 de março de 2008
Março, mês da primavera
Tal como a primavera também tu, corpo necessário, corpo fulcral, virás na cadência, solene e natural, do próprio dia. E, sobre cada desabrochar, sobre cada fonte de água essencial, sobre um azul cada vez mais pleno, assumirás, dentro de mim, no meu corpo ainda precário, uma revolução de amor com contornos catastróficos de felicidade.
poesia in progress (arquitectura)
As palavras como rios de seiva e como selvas de desejo sagaz, hoje, num espaço confinado ao inexcedível e ao interminável, planaram sobre os nossos corpos tenros.
Pessoalmente, a cada palavra, na sensibilidade possível, no palato e no cheiro, reportei-me para ti, deusa, sereia eterna, mulher, corpo de incêndio por acontecer no centro da minha vida.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
Discurso auto-reflexivo acerca deste blogue
Se, eventualmente, alguém ficou com a ideia do contrário queria, desde já, desmitificar essa hipótese. Sempre parti de uma premissa muitos simples: quem através do infinito conhecimento procura, de uma forma séria, a verdade e o seu auto-entendimento deve, obrigatoriamente, ser avesso a trivialidades como a vaidade ou a presunção. A descoberta, como seres humanos, do nosso enquadramento no espaço e no tempo é, no meu entender, um exercício bastante sério e urgente.
Portanto, por outras palavras, para que me compreendam, entendo a arte como a acção mais profunda da humanidade, apresentando-se, verdadeiramente, como único caminho para a transcendência.
E a arte, embora, a todos os níveis, ambígua, não se circunscreve somente a determinadas elites. Qualquer acto que nos afaste da nossa condição inicial de “animais acossados na luta pela sobrevivência” [1] , qualquer forma de expressão e reflexão, mesmo que pequena e simbólica, mesmo que com baixos códigos de leitura ou baixos índices sócio - culturais, é uma forma de arte. Certamente, não terá o mesmo valor de obras eruditas, reconhecidas por uma comunidade e por um público, no entanto, pelo menos, terá um valor simbólico – representa um importante crescimento interior.
É com esta consciência e com este pensamento que este blogue se processa. Busco-me como ser humano, ciente de que a cada palavra, a cada frase ou verso, me humanizo e me dignifico.
Para finalizar, e chegando ao objectivo primordial desta reflexão, não discuto a suposta fundura das minhas reflexões nem a qualidade ou beleza dos textos. Humildemente, reconheço as minhas falhas, os meus erros, a minha inaptidão. Mas nunca, em qualquer situação, aceitarei que chamem às minhas palavras vulgares porque elas embora, horríveis e modestas, representam um momento, particular e íntimo, de descoberta e de procura a todos os níveis. Elas são a prova evidente de que me refuto a qualquer tipo de alienação e que, ao mesmo tempo, não sou um mero animal irracional.
[1] Sophia de Mello-Breyner Andresen - “Posfácio”, Livro Sexto, Lisboa, Moraes Ed., 1976, pp.75-77
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
XXXI Espera
Pesadas, fundas,
Esperarei por ti
Até que todas as coisas sejam mudas.
Até que uma pedra irrompa
E floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
E no silêncio desapareça.
Eugénio de Andrade, As mãos e o frutos
porque um dia num futuro indeterminado terão todas as manhãs a cor dos teus olhos
domingo, 24 de fevereiro de 2008
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
XI
no ritmo da própria primavera,
e como as flores e os animais
abrirás nas mãos de quem te espera.
Eugénio de Andrade, As mãos e os frutos
Digo-te – a voz difícil, sim, a voz vacilante e ressoada – sobre esta condição insignificante de ser homem totalmente efémero, és a luz mais inefável, a que sobre veredas e veredas soletra todo o meu corpo.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
sábado, 16 de fevereiro de 2008
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
domingo, 10 de fevereiro de 2008
Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.
Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.
Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém me diz.
Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que eu morro por meu país.
Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio - é tudo o que tem
quem vive na servidão.
Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.
E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.
Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.
Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).
Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.
E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira dum rio triste.
Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.
E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.
Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.
Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.
Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
Manuel Alegre
Para os que lutaram pela minha liberdade um céu cheio de estrelas
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
(A realidade. As montanhas de neve erguidas em mim, os diversos mares onde entrepus o teu corpo, a cidade de luzes e torres de canais e castelos, a inverdade avassaladora deste mundo.)
Suspendo-te na minha reflexão, bem perto da fronteira onde os sonhos se reagrupam e os medos se reconfiguram. Não tenho mais a dizer-te do que isto. Entre o caos da realidade e a loucura das fantasias pouco mais de que um pássaro frágil e ténue.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
Terror de te amar num sítio tao frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeiçao
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Antologia
Círculo de Poesia
Moraes Editores
1975
Invento pétalas ondas lilases e fulgurantes
Lugares predispostos a acolher o teu ventre a tua génese
Paraísos de névoa para que seja o teu corpo ainda
Mais pleno
Não temas a insubordinação do mundo
Este barulho de gritos e lágrimas negras
Este holocausto diário e directo
Há um mundo dentro de mim
Só para ti
domingo, 27 de janeiro de 2008
A tarde expande-se pela minha alma e nenhuma outra palavra, para além, de necrotério me ocorre. O sol esburaca, já, os meus poros e quase que sinto a melodia da morte. Vejo a repetição de homens tombados sobre o final. Não é auspicioso o futuro. Preocupa-me a falta de dignidade em vida.
Também eu debaixo da mesa no cochicho do poema. Possivelmente, uma mosca de zumbido alado que atenua o silêncio. O coração foi remexido e toda a casa está desarrumada, os pratos sobre a cama. Pudesse eu, nesta condição de excessivo, materializar os meus sonhos um a um. Tudo seria antagónico - os corpos sobre a mesa.
sábado, 26 de janeiro de 2008
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou gravada a tua mão, e deixo o dia
caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reconhecer
o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.
Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.
Viegas, Francisco José
Meu deus blasfémia encontrar num poema a verdade a essência desta coisa que se apodera e sobrevoar toda esta condição dizer permanentemente mar e fogo algo que se desprende com a noite devanear não entender relembrar apenas os versos possíveis construir uma ponte passar para o outro lado da margem













































