quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Robert Capa

lamento a vida, a obsessiva curiosidade, as balas que não furam os corpos

esse sémen criminoso que procria

relembrem aqueles dias sobre o quarto cinzentos pretos negros onde queremos morrer

porque simplesmente não fazemos sentido

porque não correspondemos aos idílios da nossa cultura

- a mulher vaga dos sonhos não está estendida na nossa cama pronta para a explosão sensorial

relembrem a dor inexplicável do abandono, da rejeição, da inferioridade

nas casas espalhadas pelo silêncio

assumo a ideia de suicídio colectivo a morte em massa

uma redenção uma paz ubíqua por todo o corpo
Em Novembro começam os anúncios publicitários natalícios. Em Dezembro os centros comercias inundam-se de pessoas que efusivamente procuram presentes redentores. Mas porquê? Acreditamos todos que esse tal de Jesus Cristo, esse ser que a História releu como messias, foi um ser transcendente? Que falou com Deus? Que morreu por nós na Cruz?

Eu sei que a humanidade precisa de mitos, que a humanidade precisa de guias espirituais tal é a megalomania da incerteza. Mas estes vinte séculos de guerras e desigualdades comprovam a decadência desse mito.

Peguemos em Gandhi, no seu altruísmo, em todas as câmaras que comprovam a veracidade das suas acções e partamos dele para esse indeterminado futuro. Motivemo-nos nas verdades, naquilo que realmente sabemos que existiu.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Estou cansado de pós-modernismos e de definições indefinidas. Não me sei. Ninguém sabe. Que venha essa implosão de uma vez por todas. Que não nasça o sol depois desta noite.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Jeff Wall, "suddengust"

Tenho demorado em cólera as passadas para o futuro.

Perto da morte os timbres esmagam-se.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

"Summer 78" de Yann Tiersen e Claire Pichet

já não sei se a felicidade permanece por momentos
Li Wei, Free degree over the 29th story, 2003


vamos cair. decidiram hoje. ou no esplendor civilizacional ou no seu mero espectáculo de animalidade. mas vamos cair.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008


nos caminhos metafóricos e iluminados apenas a ideia de um silêncio visceral se tem reiterado

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

E viajas apressadamente nas características do útero recíproco
onde as esponjas desgarradas viabilizam o
desapossamento das minúsculas escarpas
como um ascensor de areia agarrado á guitarra das ondas
renovando as imperfeições das algibeiras no calor cilíndrico das
grinaldas
e tudo se explica
quando as possibilidades da argila ficam exaustas nas introspecções da
pele
quando a solenidade permanente de um fio musgoso
derruba ansiosamente as contradições
dum lugar virginal
e tudo se explica
quando se corrompe a ourivesaria vegetal do poema no derrame nítido
dos teus ombros
como um gosto de frutos desalojados
que irradiam imperceptivelmente
nos exames puros das espontâneas fissuras
As constelações regressam lentíssimas ao centro da rama lavrada
pedindo uma parcela de mar eu tu aqui na confidência do cais
desatando as vocações das ervas transparentes nas instâncias das mãos
para agitar as coincidências das bocas
na turgescência dos seios e os
membros suscitam os conceitos sonâmbulos da claridade
ao identificarem a transmudação do desejo


Luís Serguilha, “Embarcações”
Alex Katz

os dedos não ressoam todas estas voragens. por vezes não respiro

sábado, 11 de outubro de 2008

Alex Katz, Sparkling Sea 2, 2007

a metafísica não corrompe o teu jugo. impregnaste-me de obsessão. ódio. de gritos eufemizados na violência com que possuo mulheres. com que abro e fecho portas.
Laura Henno, Untitled, 2005, courtesy of the artist

as mãos devassadas. secas

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Virgilio Ferreira, Peregrinos do Quotidiano

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Delírios de um adolescente na hora do suicídio

O vento rarefeito propaga-se pelo espaço que me contém. Não te contarei deste caminho que me leva à morte. Não me adiarei nesta vida incongruente porque a minha alma é volátil demais para esta crueza em que se define a liberdade. Podem trazer-me o mar pleno e a brisa que o acompanha. Podem trazer-me as cores mais belas e uma manhã de domingo em que os pais embalam os triciclos dos filhos pelas marginais. Não sucumbirei à vontade de viver, á vontade de conquistar o arco-íris.

Eu que nunca me despedi de ninguém. Engolir este último pedaço de ar e sentir o cheiro húmido da terra não vai doer. A realidade é a morte.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

dispo-me sobre a tua pele e conquisto suavemente a cadência do teu órgão vital

quinta-feira, 26 de junho de 2008

A única resposta

Jantáramos os dois pela primeira vez:
amizade ou amor, pouco interessava
desde que alí estivesses. O meu mundo
ia mudando à medida do teu,
a cada gesto vão da vã conversa
antes que fôssemos pIo Bairro Alto
e enfim o Lumiar, a tua casa.
Eu podia contar uma história, dizer
como aquele rosto atravessava o meu -mas não,
«nada de narrativas, nunca mais».
Apenas a certeza de estar morto
há tanto tempo, que já não me lembro
de cor nenhuma dos teus olhos. Não,
já não existe o dia nem a noite
e este silêncio deve ser talvez
a única resposta. É bem melhor
ficar à espera de que não regresses.


Fernando Pinto do Amaral
A Escada de Jacob
Assírio & Alvim

Não te consigo dizer nada. Estou árido de imagens e vento.


quinta-feira, 19 de junho de 2008

Duane Michaels

Está seca a voz de repetidamente não dizer o teu nome

domingo, 15 de junho de 2008

Paul Klee
vertem sangue as minhas mãos sobre a tua imagem. as portas batem ferozmente. na dor de todas as mulheres violadas soergo-te. batem as portas ferozmente. soergo-te para que continues utopia

terça-feira, 10 de junho de 2008



Cesariny a reviver a primeira geração modernista.

domingo, 8 de junho de 2008

Jeff Wall, Dead Troops Talk (A vision after an ambush of a Red Army patrol, near Moqor, Afghanistan, winter 1986) 1992

jazem em mim multidões de mortos.

Jeff Wall, 1999

nenhuma metáfora transborda esta dor de homens decepados pelo corpo. tenho cutelos nas veias e ninguém vê
Reinhard Bachl, My personal life


há catarses de fogo por vezes. imagens de aldeias a arder. tenho crianças queimadas dentro de mim

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Margarida Correia, Saudade, Ana 2004

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Queria redimir-me desta imagem. Dizer que me esgoto nela. Que poucas produções artísticas foram tão duras para mim. Espalmei os primeiros anos da minha vida. Relembrei imagens próximas. Relembrei a intensa curiosidade da minha infância.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Jeff Wall

há palavras que queria dizer ainda hoje mas tudo é sobejamente difícil

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Duane Michaels, Untitled, 1968

não me vês porque me oculto na luz. no coração das tuas palavras para sempre.
Roger Ballen

sou capaz de te dizer abismos e palavras sem fascínios. enormes vagas de mar. mas no meu corpo e no meu tempo o teu suor cai repetidamente

terça-feira, 27 de maio de 2008

Daniel Blaufucks, motel

sustenho a memória do teu corpo e aguento toda a violência inerente - amar parece um exercício bélico
A violência representa, em qualquer circunstância, uma regressão no fundamento da nossa existência.
Este filme chocou-me pelo relembrar da capacidade malévola do ser humano.
Não consegui ver seguido. Chocou-me uma violência tão crua, tão desleal.

sábado, 17 de maio de 2008

(Milão - a recordação e a consequente saudade)

Chego a casa. Subo as escadas substancialmente. O cansaço das pernas ressoa no barulho que prolifera pelo enorme pé direito. A porta está entreaberta. Reconheço a intensidade de luz que emerge. Entro no quarto. Constato que está desarrumado. Discos como diz o meu pai no chão, cama por fazer, roupa suja no chão, o computador ligado e o programa de gestão de música a brotar um músico qualquer que tem o dom de tocar piano. Fico estático. Apetece-me dançar suavemente e sozinho mas tenho vergonha de mim mesmo. Fico contraído. Reparo novamente no quarto. Não há nada que me exalte. Releio-o um poema pessoal cravado na parede. Contemplo o vermelho do cenário. Olho para um livro escondido na prateleira da secretária. Pego-lhe. Sento-me no sofá. Abro-o numa parte chamada de As Palavras Interditas. Leio-o o primeiro poema. O segundo. O terceiro. O décimo. De repente olho para a janela. Reparo na constante mudança de intensidade de luz. Elaboro uma piada execrável: o sol está a falar comigo. Levanto-me do sofá. Arrependo-me de mim. Penso em borboletas e em colibris. O piano toma-me. Começo a dançar de olhos fechados. Ocorrem-me imagens várias. Aumento o volume. Apetece-me explodir. Danço com mais intensidade. O suor já cai. Estou abraçado ao silêncio interior. A beleza da música molda-me. Acho-me imortal. Cai-o perpetuado na cama. Dispo-me. Atiro os lençóis da cama para o chão. Empurro a cómoda. Desarrumo ainda mais. Peço a Deus, cuja existência não acredito, que me leve para junto dele. Que me nomeie arrumador de carros no paraíso. Presumo que todos os carros sejam híbridos. A luz dissipa-se levemente. Relembro a toada dos teus beijos. Apetece-me viajar. Conhecer o mundo. Cravar no peito lembranças para que a nostalgia na hora da morte intensifique a despedida. Prometo nunca mais falar em morte. Basta-me estes devaneios à maneira do Ruy Belo. Eu que um dia já sonhei em ser poeta. Espero pelo nada. Talvez saia esta noite. Talvez jante em casa. Espero pelo nada. Deixo o tempo correr. O tempo é um rio dizem todos os poetas. Tenho imenso pêlos. Merda de velhice. Se os cortar volto a ser criança. Volto a jogar futebol com o André Mendes. Volto a jogar ao quarto escuro com a Claudiana. No próximo ano vou estar em Paris. Ou no Rio de Janeiro. Ou em Évora. Ou no Pão de Açúcar em Santo Tirso. Mudo de álbum. Ponho um ainda mais triste. Imagino-me no Leblon. O mar com montanhas. Chuva a cair sobre a janela. Eu nostálgico e superior. Ponho o volume no máximo. O som fica menos perfeito. Relembro Paris. Certos odores. O Trocadero. Todo aquele Neo-clássico. A Arte nova. A chuva que caiu numa tarde de Agosto. Salto em cima da cama. Quero que ela parta. Quero que este quarto fique como a fotografia destroyed room do Jeff Wall. Penso em tudo e tudo me confunde. Para quê a harmonia? A beleza das coisas? Vejo-me destruído por dentro. Desarrumado. Não sou poeta. Não tenho ninguém para dançar comigo. Só o silêncio desmedido que rumina no interior. Só. Decido-me. Fecho a janela e a porta. Destruo a luz. Embrulho-me nos lençóis. Enrolo-me. Medito. Cerro os olhos na esperança de que o sono me traga um sonho. Outra realidade que não a maça sobre a janela da Sophia. Espero. Espero. Espero eternamente.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Pequena Reflexão

Nunca, em qualquer momento, ao longo do meu crescimento e das minhas aprendizagens, me foi indiferente este complexo titânico de fenómenos e de ambiguidades com que se caracteriza o mundo.

Numa, humilde, análise á humanidade, desde os seus primórdios, penso que nunca outra coisa foi tão severa e tão essencial para o Homem como perceber a lógica da existência da vida e, por consequência, do mundo. Poderemos perspectivar o planeta e sua evolução sob várias formas. Mas veremos que todas, por caminhos diferenciados, irão confluir numa mesma direcção – o de explicar o sentido da existência humana.

Provavelmente, e considero-me um dos tantos transeuntes deste mundo, estaremos como civilização presente muito longe dessa descoberta e, por ventura, duvido que o tempo que medeia o presente e o da implosão final do mundo chegue para que o descubramos.

Embora mergulhados nesta questão essencial, entre avanços e recuos, entre guerras e descobertas tecnológicas, é certo que o planeta e a humanidade continuam a habitar o tempo e a transformação dos princípios que constituem a nossa sociedade ocorrem a uma velocidade cada vez maior.

Garantir que o futuro da civilização e do planeta seja promissor não é, apenas, uma obrigação de consciência. É, também, uma atitude altruísta e filantrópica que simboliza que o irracionalismo da condição inicial se perdeu e que o ser humano enlevado consegue racionalizar inteligivelmente as suas acções.

Há aqueles que, apesar das atenuantes, acreditam no futuro. Para o reputado Sociólogo Alvin Tofler “com inteligência e um mínimo de sorte – a civilização emergente pode tornar-se mais sã, sensata e sustentável, mais decente e mais democrática do que qualquer que jamais conhecemos”

É nosso dever como privilegiados, como estudantes do ensino superior com constante acesso ao conhecimento erudito, dirigirmos as nossas acções e contribuirmos para a melhoria do futuro.

Por isso, este projecto direccionado para o desenvolvimento humano.
(Prefácio do trabalho de gestão)

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Joseph Beuys, DeadHare

o fogo crispou-se no terror das casas rarefeitas. de baldes secos em punho sou eu extravasado que acorro.
tangente aos sonhos recolho-me na espiral do teu sono. refaço, com gestos e palavras de proletário, a noite onde habitas os lugares mais puros

quarta-feira, 23 de abril de 2008

tenho o tédio todo a cúpula do horror e da decadência o meu corpo é uma natureza morta nada prolifera em mim sou um manancial de hienas e abutres

decapito até a felicidade - o mar negro a nascer

terça-feira, 22 de abril de 2008

Eduardo Chillida, elogio do horizonte, 1990

desmoronei-me parti-me no chão no som do corpo da tua voz quebrei-me repetidamente como ondas proliferadas

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Alex Katz, Amanda

vieste finalmente na sumptuosidade do tempo clara e urgente

estou despido e aberto à tua espera neste quarto de quimeras aglomeradas
inquieto de te possuir de amor de te mostrar a floresta retumbante por detrás dos meus olhos o mar puro por detrás da minha pele


terça-feira, 15 de abril de 2008

tu plural de tantas coisas o corpo autêntico imenso
a luminosidade desenfreada todo o mar que me acorre
tu repetidamente fonte génese de luz
vem na voracidade do vento devora-me abre-me
atraca-te no meu corpo crava-me a alma desenha-me
um navio próximo de tudo
porque hoje revoltado comigo próprio com este silêncio que ejacula sobre a pele abri o quarto e arrumei toda a minha vida

arrombei as janelas fechei a porta abri gavetas caixas de pandora remexi fundo na dor nas palavras de água que restaram pelos papeis como foi duro deparar-me com o passado novamente reflectir em vão o tempo a minha incompreensão

já foi tudo tão diferente a casa os corpos ao meu redor o meu próprio corpo os meus sonhos os meus temores e até o mar se alongou na distância por ventura a bruma me oculta a visão

sobre o quarto destroçado eu que pensava ser tão diminuto vi a minha vida espalmada pensei muito as lágrimas fundas pelo coração interiores

seremos memória somente

segunda-feira, 14 de abril de 2008

deixo-me ficar na apatia deste quarto as paredes rasgadas a janelas cerradas todo o tempo mudo a correr lá fora grito frases invertidas ou combato com as mãos os fantasmas da temporalidade leio neste tédio navios longínquos e gigantes arrastados pelas correntes pergunto-me se não serei longe daqui

terça-feira, 8 de abril de 2008

(Inauguraste-te hoje quando o sol raiava na intensidade máxima)

sobre a confusão do tempo um grito imprimido do teu silêncio abriu uma brecha de nuvens e esperanças a desordem dos rios e dos ribeiros do sangue marfim esconjurou-se no interior do meu corpo algum complexo titânico irá nascer
talvez o amor

domingo, 6 de abril de 2008

Terceiro direito

O inferno, aqui. Deve ser normal.
Um choro de criança, no andar
de cima, sobrepõe-se à música
que não ouço e que é talvez de Brel
(nenhum quarteto de Mozart serviria agora

Há dias assim. Os guindastes
da insónia não seguram a voz, desastre
anunciado pela teimosia de pássaros
suburbanos. Coisas de muito esquecer,
se eu pudesse. Mas o corpo hesita,

volta a ser o envelope vazio
de um destino por assinar - e que
nada tem, neste momento, de «literário»,
Sinto a luz na garganta, sufoco
discretamente, alheio ao excesso .
de imagens que me traz o dia. ,
A alegria, se quiserem, fica para mais
tarde. Aqui, de novo, morre-se muito mal


Manuel de Freitas
[SIC]
poesia inédita portuguesa
Assírio & Alvim

não manuseio o tempo. tenho medo do futuro e de nuvens cinzentas.

os dramas desta civilização que se confunde entre o animalismo e o humanismo

existe tráfego de crianças em pleno século XXI

sábado, 5 de abril de 2008

Parte II de um momento

Daniel Blaufucks, Motel

partiste e todo o tempo se rasgou em pedaços pelo chão restei eu esquartejado na agudeza da noite tombado sobre os lençóis com teu cheiro lancinante

Parte I de um momento

Daniel Blaufucks, Motel

ver-te-ei chegar por entre o tempo branco e solene pronta para redefinires em suspiros a lógica desta conjunção

segunda-feira, 31 de março de 2008

porque a poesia do Eugénio é o paradigma da beleza

porque foi em ti que vi o fulminar do sol sobre os muros de cal porque era em ti que os cabelos ondulavam no despotismo do vento como searas
porque tu eras a génese de todos os silêncios

em mais nenhum corpo encontrei os poemas do Eugénio

só no teu
Amo-te como Baltasar amou Blimunda

sexta-feira, 28 de março de 2008

o vazio da tua voz

do teu corpo

arrasa todo este espaço que me confina


sou apenas um cadáver

quinta-feira, 27 de março de 2008

Para que me serviria o conhecimento mais erudito, para que me serviria entender todas as coisas, se é no convencionalismo da minha cultura que projecto todos os meus sonhos

segunda-feira, 24 de março de 2008

22 DE ABRIL

A vida é infinita.
Mas nada é tão enorme quanto a morte.


Dos cadernos de Irene
Mia Couto, "Vinte e Zinco", pág 43


(Momento íntimo na Nazaré)

domingo, 23 de março de 2008

se tu, utopia de amor, te despenhasses agora dentro de mim
toda a respiração sustida

sábado, 22 de março de 2008

Auto-mutilação

a água ferve por todo o meu corpo escalda queima. estou dizimado

quinta-feira, 20 de março de 2008

Pequena nota

tenho o mar mais próximo do que nunca tem todo o brilho e toda a dimensão quero amá-lo

sábado, 15 de março de 2008

Pedido simples


Despe-me com a integridade das tuas palavras

Abre-me o corpo

Deposita-te em mim celeste e sublime

Materializa-me toda a felicidade

quinta-feira, 13 de março de 2008

quarta-feira, 12 de março de 2008

Lápide

poderei dirimir-me no perjúrio do teu corpo apagar-me dentro de mim extinguir o último
filamento de vida

mas no meu túmulo o epitáfio será teu não esqueças

Debandada

o vento solta-se das amarras e o coração pode voar agora

segunda-feira, 10 de março de 2008

Promessa

se me abrires espaços imperdíveis


se me disseres que dentro de ti nos lugares mais fundos existe um deserto árduo para meu deleite


eu prometo-te na violência das manhãs
ser um corpo supremo de amor

domingo, 9 de março de 2008

Imperativos

todo o meu corpo é um escombro, uma linha ténue de tempo que dividirá, em silêncio espesso, o mar

quinta-feira, 6 de março de 2008

Sem mais nada para dizer


Penso que morri por aí onde o inverno é perpétuo e longo

domingo, 2 de março de 2008

porque, ontem, dormi numa cidade de mar


Acredita na violência da beleza do mar, no seu aroma de elemento puro e tem fé no horizonte imposto porque, amanhã, nesse preconizar do futuro, só te restará, nos escombros da memória, o corpo que, outrora amordaçado contra o teu, foi um barco perfeito de silêncios

sábado, 1 de março de 2008

Março, mês da primavera


Tal como a primavera também tu, corpo necessário, corpo fulcral, virás na cadência, solene e natural, do próprio dia. E, sobre cada desabrochar, sobre cada fonte de água essencial, sobre um azul cada vez mais pleno, assumirás, dentro de mim, no meu corpo ainda precário, uma revolução de amor com contornos catastróficos de felicidade.

poesia in progress (arquitectura)


As palavras como rios de seiva e como selvas de desejo sagaz, hoje, num espaço confinado ao inexcedível e ao interminável, planaram sobre os nossos corpos tenros.

Pessoalmente, a cada palavra, na sensibilidade possível, no palato e no cheiro, reportei-me para ti, deusa, sereia eterna, mulher, corpo de incêndio por acontecer no centro da minha vida.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Discurso auto-reflexivo acerca deste blogue

A construção deste espaço nunca foi, para mim, um acto caprichoso de vaidade ou uma forma presumida de criar um discurso erudito para exacerbação ou valorização própria. Alias, nunca, em qualquer momento, da minha parte, houve uma intenção de publicitação massiva. Foram, e como provam as pouquíssimas visitas de que este espaço foi alvo, informadas, apenas, pessoas cuja proximidade e sensibilidade me davam a impressão de querem partilhar, comigo, estes pequenos pedaços de momentos efémeros.

Se, eventualmente, alguém ficou com a ideia do contrário queria, desde já, desmitificar essa hipótese. Sempre parti de uma premissa muitos simples: quem através do infinito conhecimento procura, de uma forma séria, a verdade e o seu auto-entendimento deve, obrigatoriamente, ser avesso a trivialidades como a vaidade ou a presunção. A descoberta, como seres humanos, do nosso enquadramento no espaço e no tempo é, no meu entender, um exercício bastante sério e urgente.

Portanto, por outras palavras, para que me compreendam, entendo a arte como a acção mais profunda da humanidade, apresentando-se, verdadeiramente, como único caminho para a transcendência.

E a arte, embora, a todos os níveis, ambígua, não se circunscreve somente a determinadas elites. Qualquer acto que nos afaste da nossa condição inicial de “animais acossados na luta pela sobrevivência”
[1] , qualquer forma de expressão e reflexão, mesmo que pequena e simbólica, mesmo que com baixos códigos de leitura ou baixos índices sócio - culturais, é uma forma de arte. Certamente, não terá o mesmo valor de obras eruditas, reconhecidas por uma comunidade e por um público, no entanto, pelo menos, terá um valor simbólico – representa um importante crescimento interior.

É com esta consciência e com este pensamento que este blogue se processa. Busco-me como ser humano, ciente de que a cada palavra, a cada frase ou verso, me humanizo e me dignifico.

Para finalizar, e chegando ao objectivo primordial desta reflexão, não discuto a suposta fundura das minhas reflexões nem a qualidade ou beleza dos textos. Humildemente, reconheço as minhas falhas, os meus erros, a minha inaptidão. Mas nunca, em qualquer situação, aceitarei que chamem às minhas palavras vulgares porque elas embora, horríveis e modestas, representam um momento, particular e íntimo, de descoberta e de procura a todos os níveis. Elas são a prova evidente de que me refuto a qualquer tipo de alienação e que, ao mesmo tempo, não sou um mero animal irracional.

[1] Sophia de Mello-Breyner Andresen - “Posfácio”, Livro Sexto, Lisboa, Moraes Ed., 1976, pp.75-77

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Kitaj, Agaist Slander

se queres o mar vem alcança-lo na minha boca

Andy Warhol, atomic bomb

palavras vindas de lugares onde a água é pura e os dias claros palavras que me dizimaram

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

XXXI Espera

Horas, horas sem fim,
Pesadas, fundas,
Esperarei por ti
Até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
E floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
E no silêncio desapareça.

Eugénio de Andrade, As mãos e o frutos

porque um dia num futuro indeterminado terão todas as manhãs a cor dos teus olhos

domingo, 24 de fevereiro de 2008

David Hockney

Reabro-me por dentro e traço todas as conjecturas possíveis: -fenecerei onde as gaivotas forem mar.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

XI

Olhos postos na terra, tu virás
no ritmo da própria primavera,
e como as flores e os animais
abrirás nas mãos de quem te espera.

Eugénio de Andrade, As mãos e os frutos

Digo-te – a voz difícil, sim, a voz vacilante e ressoada – sobre esta condição insignificante de ser homem totalmente efémero, és a luz mais inefável, a que sobre veredas e veredas soletra todo o meu corpo.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Eduardo Chillida, Ponte de Vento

tenho esperança que deus se levante do seu sono infinito e me sorva todo o sofrimento

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008


(Emigrou o meu tio para a Córsega e, por isso mesmo, por essa curiosidade estranha de saber para onde irá a minha biologia comprei o filme.)

pousar os meus lábios sobre todo o teu corpo saborear a tua pele poro a poro dizer-te a brados que não suporto a beleza dos teus ombros cheios de luz

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Jeff Wall, destroyed room

Todo o interior destruído este mar poluído em ondas convulsas dentro de mim as palavras que atravessam um vazio de séculos e a luz dos teus olhos ao fundo persistente numa esperança que teima em não acontecer
Brice Marden

quer dances ou escrevas poemas quer olhes para os confins do céu ou pintes homens sobre mulheres quer encerres um desejo material ou inventes a coisa mais comum

procura a verdade a moralidade de todas as coisas

e se não a souberes rebusca-te a ti próprio pergunta a ti mesmo quem tu és de onde vens

As palavras secaram dentro de mim e não é verão.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Imagem do filme: Costa dos Murmúrios


não acreditas quando te digo amplo que sobrevivo na claridade dos teus versos

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Trova do Vento que Passa

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém me diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que eu morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio - é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).
Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira dum rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre

Para os que lutaram pela minha liberdade um céu cheio de estrelas

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Robert Zund, The harvest potter

(A realidade. As montanhas de neve erguidas em mim, os diversos mares onde entrepus o teu corpo, a cidade de luzes e torres de canais e castelos, a inverdade avassaladora deste mundo.)

Suspendo-te na minha reflexão, bem perto da fronteira onde os sonhos se reagrupam e os medos se reconfiguram. Não tenho mais a dizer-te do que isto. Entre o caos da realidade e a loucura das fantasias pouco mais de que um pássaro frágil e ténue.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Reinhard Bachl, my personal life


Também eu rasgado e dizimado pelo fogo da tua pele a palavra amo-te que abre um silêncio entre nós seremos o prolongamento do verso

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008


Também o céu é um pedaço de mar

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Ernesto Timor

Sim hoje morrerei nesta ataraxia nestas notas musicais geniais e oníricas que me levam para as cabanas da infância e para os momentos em que cru deserto enorme mergulhei no teu corpo à procura de florestas e fontes

Paul Klee, The Rose Garden

mas nunca este amor de água e de rios, nunca esta dignidade no toque, este estremecer quando tu, límpida e pura, chegas e pronuncias o meu nome
Daniel Blaufuks

Morre, perto de mim, no aconchego do meu corpo simples

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Terror de te amar

Terror de te amar num sítio tao frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeiçao
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.


Sophia de Mello Breyner Andresen
Antologia
Círculo de Poesia
Moraes Editores
1975

Invento pétalas ondas lilases e fulgurantes
Lugares predispostos a acolher o teu ventre a tua génese
Paraísos de névoa para que seja o teu corpo ainda
Mais pleno

Não temas a insubordinação do mundo
Este barulho de gritos e lágrimas negras
Este holocausto diário e directo
Há um mundo dentro de mim
Só para ti

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Joseph Beuys

Não tenho a tua imagem no computador para respirar o ar puro do teu rosto
Ernesto Neto

O amor alastra-se agora sobre mim e sobre o mar
Sou um corpo em pleno incêndio

domingo, 27 de janeiro de 2008

Jeff Wall

A tarde expande-se pela minha alma e nenhuma outra palavra, para além, de necrotério me ocorre. O sol esburaca, já, os meus poros e quase que sinto a melodia da morte. Vejo a repetição de homens tombados sobre o final. Não é auspicioso o futuro. Preocupa-me a falta de dignidade em vida.

Também eu debaixo da mesa no cochicho do poema. Possivelmente, uma mosca de zumbido alado que atenua o silêncio. O coração foi remexido e toda a casa está desarrumada, os pratos sobre a cama. Pudesse eu, nesta condição de excessivo, materializar os meus sonhos um a um. Tudo seria antagónico - os corpos sobre a mesa.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Tom Welselman

Se te disser que este tempo é um cavalo volátil e que nas vísceras do espaço já nem tudo é meu


sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

SE ME COMOVESSE O AMOR

Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou gravada a tua mão, e deixo o dia

caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reconhecer

o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.

Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.

Viegas, Francisco José

Meu deus blasfémia encontrar num poema a verdade a essência desta coisa que se apodera e sobrevoar toda esta condição dizer permanentemente mar e fogo algo que se desprende com a noite devanear não entender relembrar apenas os versos possíveis construir uma ponte passar para o outro lado da margem

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Tobia Modorin

Suspenso na brevidade deste mar que se afoga em mim

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Boris Kustodiev, "O Bolchevique"

A grande invenção da humanidade e uma enorme utopia que nunca se concretizará – todos os homens são imperfeitos