quinta-feira, 11 de março de 2010
segunda-feira, 8 de março de 2010
Estudos de complexidade
Maia, meu capitão leva-me para os soldados de peito incólume que te seguem na
Construção social do meu imaginário
Vem redistribuir os obuses da paz que restaram de Abril
O que te posso narrar do presente é um despojo da esperança que nos deixaste
Ninguém merece a tua força pulmonar a tua coragem sanguínea
Ninguém nos vem salvar com a mesma veleidade que tu
Gostaria de conversar contigo deste mundo demiúrgico
Do homem máquina do homem computador do homem electrónico
Dos sons de carros do preço do crude
Das novas jurisdições pós-coloniais
De tudo um pouco que nos comporta e nos impulsiona
Mas não é tempo para política
É tempo para poesia
Para a expressão plena do Homem
Não sei se convoque novamente os capitães para a estrada fria da noite
Nem que seja para ser só eu o salvo
Maia, o meu problema não são as crises cíclicas do capitalismo
Não é a miséria a pobreza
O meu problema é a minha relação com o presente e com o futuro próximo
sempre cónico
Esse grito de dizer o que vai ser
Que clareira electrodinâmica electromagnética se vai abrir para a minha existência
O medo
Esse medo que está em todos os poemas do Al Berto
Que todos sentimos colectivamente
É só o tempo franco de fechar os olhos e construir filmes oníricos
De imaginar navios na neblina
Aviões
Corpos lustrosos que se acumulam sensitivamente nas casas abandonadas obliterados da dor do medo que portam dentro de si
É tudo o que tenho
Maia, volta em nome do poema Kírie
Volta para as instâncias da realidade
Para o presente das releituras históricas
Maia, meu capitão leva-me para os soldados de peito incólume que te seguem na
Construção social do meu imaginário
Vem redistribuir os obuses da paz que restaram de Abril
O que te posso narrar do presente é um despojo da esperança que nos deixaste
Ninguém merece a tua força pulmonar a tua coragem sanguínea
Ninguém nos vem salvar com a mesma veleidade que tu
Gostaria de conversar contigo deste mundo demiúrgico
Do homem máquina do homem computador do homem electrónico
Dos sons de carros do preço do crude
Das novas jurisdições pós-coloniais
De tudo um pouco que nos comporta e nos impulsiona
Mas não é tempo para política
É tempo para poesia
Para a expressão plena do Homem
Não sei se convoque novamente os capitães para a estrada fria da noite
Nem que seja para ser só eu o salvo
Maia, o meu problema não são as crises cíclicas do capitalismo
Não é a miséria a pobreza
O meu problema é a minha relação com o presente e com o futuro próximo
sempre cónico
Esse grito de dizer o que vai ser
Que clareira electrodinâmica electromagnética se vai abrir para a minha existência
O medo
Esse medo que está em todos os poemas do Al Berto
Que todos sentimos colectivamente
É só o tempo franco de fechar os olhos e construir filmes oníricos
De imaginar navios na neblina
Aviões
Corpos lustrosos que se acumulam sensitivamente nas casas abandonadas obliterados da dor do medo que portam dentro de si
É tudo o que tenho
Maia, volta em nome do poema Kírie
Volta para as instâncias da realidade
Para o presente das releituras históricas
terça-feira, 2 de março de 2010
Os balcões sucessivos sobre o rio
Os balcões sucessivos sobre o rio
as tesouras de poda nas roseiras
a sonolência lânguida e perversa
esse todo coerente e sobre ele apenas
a abóbada da minha perfeição
é esse o meu convite à desistência
a pena menos pública do mundo nos
lagos das finas flores dos sabugueiros
onde a mulher soltava os cabelos
pra que neles se prendesse o cheiro a erva
Ela tinha um aspecto inesperado
vinha com o vestido cor magenta nos
braços que lhe cresceram sobre a terra
movia-se ao andar como uma barca
Importa-me é o curso do dia e da noite
Vou andar um bocado nos caminhos
é pela hora em que não há ninguém
nudez desprevenida dos meus dias
mas só de noite desço até ao mar após
as sete horas da tarde hora crepuscular
os cheiros confortáveis e antigos
imagens dum lirismo fraudulento
um conforto algum tanto apreensivo
coisas que desde a infância a construíam
Mudo de opinião continuamente
espero o teu regresso pela tarde
e cuidadosamente velo a minha cólera
A vida é para mim pesar de pálpebras
leitura de discursos no outono
na casa abandonada e submetida à chuva
Regresso afinal aos próprios hábitos
sorrisos de mulheres sobre a areia
sou fiel à tristeza e pouco mais
e meto então um lenço num dos bolsos
que cheira ao perfume dos pinheiros
Ave de alarme sou deixem-me só
sou um contemporâneo assisto a tudo
os sinos vesperais nos dias de verão
o cão que passa numa encruzilhada
um cântaro que racha inexplicavelmente
confundido no hálito do mar
a minha saudação aos infantes do medo
crianças que iniciam o andar
Espero por alguém espero pelo sol
pla doçura estival da laranjeira
ando pelos caminhos muito tempo
e passo pelas portas devassadas pelos ventos
em cujos gonzos sopram agonias
E espero de novo a floração da primavera
Não quero nada quero estar presente sobre
as dunas do começo dos pinhais
nesse mundo de medos e animais
onde abri os meus olhos para a luz de agora
E perco todo eu em contriçães
ó terra branca e carnal e triste
as minhas madrugadas do sargaço
abertas nos bocejos da neblina
quando o tempo é suave e chega em dunas
à sensibilidade das narinas
nas horas generosas da maré
Ruy Belo
Despeço-me da Terra da Alegria
Todos os Poemas
Assírio & Alvim
2000
Os balcões sucessivos sobre o rio
as tesouras de poda nas roseiras
a sonolência lânguida e perversa
esse todo coerente e sobre ele apenas
a abóbada da minha perfeição
é esse o meu convite à desistência
a pena menos pública do mundo nos
lagos das finas flores dos sabugueiros
onde a mulher soltava os cabelos
pra que neles se prendesse o cheiro a erva
Ela tinha um aspecto inesperado
vinha com o vestido cor magenta nos
braços que lhe cresceram sobre a terra
movia-se ao andar como uma barca
Importa-me é o curso do dia e da noite
Vou andar um bocado nos caminhos
é pela hora em que não há ninguém
nudez desprevenida dos meus dias
mas só de noite desço até ao mar após
as sete horas da tarde hora crepuscular
os cheiros confortáveis e antigos
imagens dum lirismo fraudulento
um conforto algum tanto apreensivo
coisas que desde a infância a construíam
Mudo de opinião continuamente
espero o teu regresso pela tarde
e cuidadosamente velo a minha cólera
A vida é para mim pesar de pálpebras
leitura de discursos no outono
na casa abandonada e submetida à chuva
Regresso afinal aos próprios hábitos
sorrisos de mulheres sobre a areia
sou fiel à tristeza e pouco mais
e meto então um lenço num dos bolsos
que cheira ao perfume dos pinheiros
Ave de alarme sou deixem-me só
sou um contemporâneo assisto a tudo
os sinos vesperais nos dias de verão
o cão que passa numa encruzilhada
um cântaro que racha inexplicavelmente
confundido no hálito do mar
a minha saudação aos infantes do medo
crianças que iniciam o andar
Espero por alguém espero pelo sol
pla doçura estival da laranjeira
ando pelos caminhos muito tempo
e passo pelas portas devassadas pelos ventos
em cujos gonzos sopram agonias
E espero de novo a floração da primavera
Não quero nada quero estar presente sobre
as dunas do começo dos pinhais
nesse mundo de medos e animais
onde abri os meus olhos para a luz de agora
E perco todo eu em contriçães
ó terra branca e carnal e triste
as minhas madrugadas do sargaço
abertas nos bocejos da neblina
quando o tempo é suave e chega em dunas
à sensibilidade das narinas
nas horas generosas da maré
Ruy Belo
Despeço-me da Terra da Alegria
Todos os Poemas
Assírio & Alvim
2000
Se alguma coisa merece estátuas, homenagens, méritos, primeiras páginas de jornais é este fabuloso poema de Ruy Belo, autor tão esquecido por nós.
Nenhum outro poeta do cenário contemporâneo português teve esta capacidade de narrar o mundo com um ritmo tão profundo.
Ruy Belo é o homem de carne que fala dos sons, dos caminhos, do que nasce, do que cresce, do que se extingue. E que função mais importante pode aspirar um poeta?
Rendo-me a este verdadeiro tratado sobre o homem e sobre o mundo.
Nenhum outro poeta do cenário contemporâneo português teve esta capacidade de narrar o mundo com um ritmo tão profundo.
Ruy Belo é o homem de carne que fala dos sons, dos caminhos, do que nasce, do que cresce, do que se extingue. E que função mais importante pode aspirar um poeta?
Rendo-me a este verdadeiro tratado sobre o homem e sobre o mundo.
segunda-feira, 1 de março de 2010
se o poema surgir por todos os quadrantes da terra
poderei dizer uvas calcadas nos lagares de outrora
pés da história entropia mil vezes
Sangue a toda a hora a fluir nas veias
Já me tenho nas mãos no meu veludo interior
Não preciso de dizer nada
Não há nada para dizer
Que as praias comecem que se estendam nas paisagens
Que se acidentem os carros como tantas vezes dissemos
Cabo Espichel da minha vida
Grito na queda dessa falésia
Para que sul irei se nasci a norte
A norte da felicidade a norte das palavras
Em fome em dor
Parir para morrer
Quando te disse aquelas palavras de amor
Quando dois corpos se encolhem com tanto medo
E restam acolchoados um no outro
Há vento nos paredões sinto-o aqui em terra sem mar
O que dizer
Neguentropia mil vezes
Já me cansei das avenidas elásticas
Da multiculturalidade da transmorte
Do vazio
Todas as manhãs terão sol
Nunca te falarei no condicional
Para que lado dormir se a cada lado habita uma parede de ferro
poderei dizer uvas calcadas nos lagares de outrora
pés da história entropia mil vezes
Sangue a toda a hora a fluir nas veias
Já me tenho nas mãos no meu veludo interior
Não preciso de dizer nada
Não há nada para dizer
Que as praias comecem que se estendam nas paisagens
Que se acidentem os carros como tantas vezes dissemos
Cabo Espichel da minha vida
Grito na queda dessa falésia
Para que sul irei se nasci a norte
A norte da felicidade a norte das palavras
Em fome em dor
Parir para morrer
Quando te disse aquelas palavras de amor
Quando dois corpos se encolhem com tanto medo
E restam acolchoados um no outro
Há vento nos paredões sinto-o aqui em terra sem mar
O que dizer
Neguentropia mil vezes
Já me cansei das avenidas elásticas
Da multiculturalidade da transmorte
Do vazio
Todas as manhãs terão sol
Nunca te falarei no condicional
Para que lado dormir se a cada lado habita uma parede de ferro
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