quarta-feira, 23 de abril de 2008

tenho o tédio todo a cúpula do horror e da decadência o meu corpo é uma natureza morta nada prolifera em mim sou um manancial de hienas e abutres

decapito até a felicidade - o mar negro a nascer

terça-feira, 22 de abril de 2008

Eduardo Chillida, elogio do horizonte, 1990

desmoronei-me parti-me no chão no som do corpo da tua voz quebrei-me repetidamente como ondas proliferadas

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Alex Katz, Amanda

vieste finalmente na sumptuosidade do tempo clara e urgente

estou despido e aberto à tua espera neste quarto de quimeras aglomeradas
inquieto de te possuir de amor de te mostrar a floresta retumbante por detrás dos meus olhos o mar puro por detrás da minha pele


terça-feira, 15 de abril de 2008

tu plural de tantas coisas o corpo autêntico imenso
a luminosidade desenfreada todo o mar que me acorre
tu repetidamente fonte génese de luz
vem na voracidade do vento devora-me abre-me
atraca-te no meu corpo crava-me a alma desenha-me
um navio próximo de tudo
porque hoje revoltado comigo próprio com este silêncio que ejacula sobre a pele abri o quarto e arrumei toda a minha vida

arrombei as janelas fechei a porta abri gavetas caixas de pandora remexi fundo na dor nas palavras de água que restaram pelos papeis como foi duro deparar-me com o passado novamente reflectir em vão o tempo a minha incompreensão

já foi tudo tão diferente a casa os corpos ao meu redor o meu próprio corpo os meus sonhos os meus temores e até o mar se alongou na distância por ventura a bruma me oculta a visão

sobre o quarto destroçado eu que pensava ser tão diminuto vi a minha vida espalmada pensei muito as lágrimas fundas pelo coração interiores

seremos memória somente

segunda-feira, 14 de abril de 2008

deixo-me ficar na apatia deste quarto as paredes rasgadas a janelas cerradas todo o tempo mudo a correr lá fora grito frases invertidas ou combato com as mãos os fantasmas da temporalidade leio neste tédio navios longínquos e gigantes arrastados pelas correntes pergunto-me se não serei longe daqui

terça-feira, 8 de abril de 2008

(Inauguraste-te hoje quando o sol raiava na intensidade máxima)

sobre a confusão do tempo um grito imprimido do teu silêncio abriu uma brecha de nuvens e esperanças a desordem dos rios e dos ribeiros do sangue marfim esconjurou-se no interior do meu corpo algum complexo titânico irá nascer
talvez o amor

domingo, 6 de abril de 2008

Terceiro direito

O inferno, aqui. Deve ser normal.
Um choro de criança, no andar
de cima, sobrepõe-se à música
que não ouço e que é talvez de Brel
(nenhum quarteto de Mozart serviria agora

Há dias assim. Os guindastes
da insónia não seguram a voz, desastre
anunciado pela teimosia de pássaros
suburbanos. Coisas de muito esquecer,
se eu pudesse. Mas o corpo hesita,

volta a ser o envelope vazio
de um destino por assinar - e que
nada tem, neste momento, de «literário»,
Sinto a luz na garganta, sufoco
discretamente, alheio ao excesso .
de imagens que me traz o dia. ,
A alegria, se quiserem, fica para mais
tarde. Aqui, de novo, morre-se muito mal


Manuel de Freitas
[SIC]
poesia inédita portuguesa
Assírio & Alvim

não manuseio o tempo. tenho medo do futuro e de nuvens cinzentas.

os dramas desta civilização que se confunde entre o animalismo e o humanismo

existe tráfego de crianças em pleno século XXI

sábado, 5 de abril de 2008

Parte II de um momento

Daniel Blaufucks, Motel

partiste e todo o tempo se rasgou em pedaços pelo chão restei eu esquartejado na agudeza da noite tombado sobre os lençóis com teu cheiro lancinante

Parte I de um momento

Daniel Blaufucks, Motel

ver-te-ei chegar por entre o tempo branco e solene pronta para redefinires em suspiros a lógica desta conjunção