terça-feira, 30 de outubro de 2007

Goya, "Fogo Nocturno"


Escuridão pelos dedos, pelos braços e até as palavras, negras, não encetam claridade. Caminhamos como civilização podre para o abismo. Um abismo tão perceptível como os teus lábios que eu não tenho.

- Explodiremos e seremos simplesmente nada

sábado, 27 de outubro de 2007

(não sei quem tirou a foto mas teve arte. A Marta está deliciosa. Não sei que no que estava a pensar. De certeza que concretizou esse pensamento)

Eu, tu e deus

Olho para o enfim, para os confins. Procuro-te no espaço e no tempo – vectores primordiais da vida. Obstinados, ainda, os meus olhos na procura

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Gustav Klimt

Em redor do meu corpo há barreiras, persianas, paredes, jaulas e montanhas. Não me consigo ver pelo outro lado. Queria tanto ver-me pela perspectiva com que tu me vês.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Agora é diferente
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro

Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor

Já não arranjamos vagar
para o amor agora
isto vai devagar
isto agora demora

Manuel António Pina
Poesia Reunida


Versos do olhar de um idoso para a sua mulher

Não te vejo a libido de outrora. Não sinto a detonação do mar, do vento, da própria terra em ascensão. O meu pénis levitava e éramos, banalmente, um só. A tua boca tinha estrelas e no teu rosto pleno encontrava o céu – primazia de luz. No inverno guardava-te a mão ao frio e o gelo era o motivo perfeito para, na demora do acordar, confrontar o meu perfil com o teu.

Fomos, assim, alados pelo fio que nos puxa para o tempo em sucessão. Hoje permaneço no teu corpo em maior sossego. Não te digo palavras de amor. Tu, também, já não precisas. Basta-nos a simplicidade de no horizonte do olhar nos encontrarmos um ao outro.
Doris Salcedo, "Shibboleth"


És uma ferida que se vai fechar na espiral do tempo. Lembrar-me-ei de ti na cicatriz espessa por todo o meu corpo. Uma marca do teu corpo quente sobre o meu

domingo, 21 de outubro de 2007


Eugène Delacroix - "La liberté guidant le peuple"



Nem só de lirismo ou de artes se faz o mundo. Alias, a base de qualquer expressão artística, seja ela de que modo for, deverá ter uma forte conceptualização inerente ao pensamento de quem a produz. Este facto, por si só concede, aquilo que é vital para o valor artístico – a moralidade da própria obra de arte. E o pensamento de quem produz poderá ser a sua percepção política, a sua cultura, a sua consciência social ou o seu processo lato educacional. Será, por fim, funcionando como um catalisador, o seu poder reflexivo o agente responsável pelo despoletar da obra de arte e pela sua qualidade.


Portanto, para mim, sem presunções artísticas, penso ser importante neste espaço, para além de demonstrar obras de arte, opinar acerca de tudo aquilo que condiciona a, própria, obra de arte.

sábado, 20 de outubro de 2007

Cresci numa casa deserta de riquezas e comodidades. Cómodos simples ajustados ao tamanho das minhas pernas mas não às enormes pernas do meu irmão ou ao coração ainda maior do meu pai. As paredes sem cor revelavam já, desde aquele tempo, o cinzento que predomina ainda hoje dentro de mim. Havia uma coisa invulgar e antagónica a toda a realidade. Uma vista privilegiada, por ordem lógica, para um aglomerado de casas e depois para o horizonte. Cresci a ver o sol levantar-se e pôr-se sobre as casas. Se fechar os olhos consigo recordar cada pormenor.
Um dia mudei-me para uma casa maior. Grande, enorme mas não pude trazer o horizonte comigo. Pensei que tudo tinha ficado na mesma. Tinha casa e não tinha horizonte. A pobreza continuava a mesma. Ser rico significava ter tudo.
De repente, na celeridade dos solstícios que não via, as pernas cresceram, os braços cresceram, a boca sentiu necessidades de amor e com todas estas mudanças a perspectiva do olhar mudou. Comecei a sentir-me insuficiente. O horizonte do meu corpo não tinha a dimensão do horizonte da minha casa pobre.
Comecei, lentamente e progressivamente, a observar a sociedade em que me inseria. Fui ganhando consciência de como tudo se processa. Descobri o significado de socialismo e de capitalismo, mais tarde de Marxismo. Entre conhecimentos e conhecimentos aprendidos no auto-didactismo e na teoria dos cursos inventados para alienar, descobri uma certeza, para já inabalável, de que a salvação da civilização humana está numa educação para o altruísmo.
Deveria ser astuto e procurar a estabilidade, a resignação, a estagnação. No entanto, há uma raiz daquele horizonte que prolifera dentro de mim. Luto todos os dias contra mim próprio, contra aqueles que são os meus instintos básicos e também, porque sou filho de uma cultura, contra a minha própria educação. Não me posso corromper, não posso virar costas a uma sociedade que por legado também é minha. Sinto, conscientemente, que não tenho a força necessária para a transformar.
Peço desculpa mas esta analepse é necessária. Numa aula qualquer de Liceu vi um filme cujo nome não me lembro. Sei que contava a história de um homem que plantava árvores numa zona árida, quase como se fosse um deserto. A glória do seu gesto, da sua persistência, da sua convicção repercutiram-se num jardim único onde a vida e a harmonia reinavam.
Todos os dias, contrariando a lógica, contrariando a minha própria consciência, tento semear nos meus alunos o altruísmo para que um dia o mundo seja um jardim de seres humanos e na harmonia do respeito pelas liberdades fundamentais possamos viver de um forma, efectivamente, digna.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007



(Vi algo de novo, ontem)

Deflagraste-te. Iluminaste-me e há tanto tempo eu não me via com tanta claridade.
Joana Vasconcelos, Bienal de Veneza

Somos da terra - a porção de chão que pisamos. Há quem diga equilíbrio, sustentação. Digo-vos realidade por onde todos os sonhos de fundamentam.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

As palavras estão vácuas. Desidratadas. Precisam de uma consulta hospitalar de urgência.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Patricia Piccinini, "The young family"



Tremendamente frágeis porque, somos só corpos à espera de calor. Um calor que muita vezes não chega. E o vento é tão frio

Plano

Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.

Nuno Júdice


Perpasso o silêncio e encontro, novamente, outro silêncio. Este desígnio repete-se todos os dias.

domingo, 14 de outubro de 2007

Uma mistura de drama e comédia num filme, excelente, sobre uma família, profundamente, socialista numa R.D.A. (República Democrática da Alemanha) que vive as tranformações da queda do muro de Berlim.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Caminho sem pés e sem sonhos

Caminho sem pés e sem sonhos
só com a respiração e a cadência
da muda passagem dos sopros
caminho como um remo que se afunda.

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes
para que a elevação e a profundidade se conjuguem.
avanço sem jugo e ando longe

de caminhar sobre as águas do céu.

Daniel Faria
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)

Não te quero dizer versos escondidos em prosa. Muito menos, esconder que neste silêncio espesso só encontro a tua ausência. Sabes bem dos sonhos, como modelam a minha vida. Estas metáforas, estas anáforas são a tentativa de recriar um espaço onírico onde possa repor toda a verdade da minha vida.
Is legal sex anal?, Is anal sex legal?, 1998
Tracey Emin


Aperto-te com toda a força. Quero entupir-te de dor, de prazer. Sinto-me dentro de ti, irreverente, na perseguição do momento em que tudo explode e em que os lábios se trincam, vorazmente, à procura do mar

Nobuyoshi Araki
Extrait de la série Erotos, 1993

Poderia confundir os teus olhos com a tua vagina. Exotismos não lhes faltam.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Na infeliz data de 2 de Outubro de 1992, uma rebelião levada a cabo por presidiários do pavilhão 9 da Casa de Detenção do Carandiru, foi sustida violentamente pelas tropas da Polícia Militar e originou uma das maiores chacinas da história das penitenciárias brasileiras.

O filme conta com grandes actores e consegue demonstrar e elucidar o espectador de toda a complexa organização social estabelecida entre os presos.
Vestígios


noutros tempos

quando acreditávamos na existência da lua

foi-nos possível escrever poemas e

envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído

pelas salivas proibidas - noutros tempos

os dias corriam com a água e limpavam

os líquenes das imundas máscaras



hoje

nenhuma palavra pode ser escrita

nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras

ou se expande pelo corpo estendido

no quarto do zinabre e do álcool - pernoita-se



onde se pode - num vocabulário reduzido e

obcessivo - até que o relâmpago fulmine a língua

e nada mais se consiga ouvir



apesar de tudo

continuamos e repetir os gestos e a beber

a serenidade da seiva - vamos pela febre

dos cedros acima - até que tocamos o místico

arbusto estelar

e

o mistério da luz fustiga-nos os olhos

numa euforia torrencial


Al-Berto
Horto de Incêndio


Foram fogo, para mim, as tuas palavras. Fonte de luz, em suma.
Hoje, sem a tua luz, sou um necrotério. Tu sabes. Sentes o cheiro das coisas mortas.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Roubei a Fotografia à Graça. (Desculpa)

“Ser poeta não é uma ambição minha/É a minha maneira de estar sozinho”
Alberto Caeiro, O guardador de rebanhos.

Por vezes, percebemos que não conhecemos o nosso corpo. A ambiguidade da alma, a sua múltipla forma de ser, atravessa-nos os lábios já cortados pela indecisão, e no desconhecimento quase profundo confundimos o nosso futuro, o nosso passado.
Somos diferentes e iguais todos os dias.
A casa onde às vezes regresso é tão distante

A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar, durmo ao lado do meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração

José Tolentino Mendonça
A Que Distância Deixaste o Coração

Ouço o mar distante. Deixo-me embalar pelas suas palavras codificadas. Enternecedoras. És a casa que encontro quando me perco.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Mummy Ahmadu and Mallam Mantari Lamal with Mainasara, Abuja, Nigeria 2005
Pieter Hugo, THE HYENA & OTHER MEN


Não me perguntem porquê, mas esta foto amedronta-me. Não tem monstros, nem dinossauros, nem corpos mutilados ou em aparente sofrimento, no entanto, demonstra-nos uma virilidade tão assustadora, tão real.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

A Vagina

É cálida flor
E trópica mansamente
De leite entreaberta às tuas
Mãos

Feltro das pétalas que por dentro
Tem o felpo das pálpebras
Da língua a lentidão

Guelra do corpo
Pulmão que não respira

Dobada em muco
Tecida em água

Flor carnívora voraz do próprio
suco
No ventre entorpecida
Nas pernas sequestrada

Maria Teresa Horta


Porque foste génese
Inicio fulgurante do meu mundo – lugar incomensurável onde tudo nasce

Ruben Almeida, STOP.


(Estive num hospital e todo o sofrimento humano me entrou pelas narinas, pelos olhos, pelos ouvidos…)

Precisamos de parar com todo este sofrimento, com esta dor que se instala na nossa falta de compaixão

O sangue escorre já a uma velocidade estonteante

E os corpos sucumbidos esperam a ordem para o último suspiro

Jorge Casais, paisagem de sonho.


Porque te digo deste sítio que não está em consonância comigo. Porque me relembro que o teu corpo também é um espaço

- Um espaço em profusão

sábado, 6 de outubro de 2007

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O’Neill


Porque está frio - um frio plural de Outono. E sinto necessidade do calor de outro corpo nas minhas arestas por definir. Um corpo que brote palavras oníricas

É um filme germânico que conta a história de uma experiencia científica levada a cabo em seres humanos.

Inspirado em factos verídicos, “ A Experiência” é um óptimo filme.


quinta-feira, 4 de outubro de 2007

O racionalismo hoje não existe. Hoje é dia de empirismo.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Andy Warhol, Marilyn Monroe.

Comentário Pop

Todas aquelas super modelos em acção são algo que causa danos na sanidade de qualquer homem. E penso: até o mais avesso a mulheres, não pode ficar indiferente. Elas desfilam esbeltas e com a aquela atitude poderosa e confiante de que deixam tudo arrasado. Heidi klum, Adriana Lima, Naomi Campbell, Karolina Kurkova (Ai, Karolina esse sorriso!), Gisele Bundchen, Tyra Banks, Selita Ebanks e Izabel Goulart estão, sem dúvida, no top twenty das mulheres mais bonitas do mundo. São assim os desfiles de Victoria’s Secret!

No entanto, com as tuas imperfeições, com esse teu ar petulante, preferia-te a ti.
Uma grande caracterização, um grande argumento e um grande filme.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

És um raio de luz

és um raio de luz
na minha vida
um pequeno e bom raio de luz
na minha vida
e essa luz clara e branca que tens,
é que ilumina
todos os passos que me levam até ti

és mais quente que o sol
quando amanhece
brilhas mais do que as estrelas do céu
quando anoitece
e esse raio de luz que tu és
nunca se esquece
de iluminar cada momento para mim

abraçar-te por fim
por muitos anos
devolvendo à realidade o que sonhámos
desejava dedicar-me assim
por muitos anos
e nunca mais renunciar a este amor

deixa-me ser como tu
um raio de luz ardente
deixa-me ser como tu és
luz e Amor somente

eu queria ser como tu
e abraçar-te contente
numa só esfera de luz
eternamente presente


Pedro Ayres de Magalhães, Madredeus.

- Porque foi o primeiro poema que me declamaste e não me esqueço
Mais um grande livro do Neo-realismo português.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

a cadeira está vazia, um corpo ausente
não aquece a madeira que lhe dá forma

e não ouço o recado que me quiseste dar
nem a tua voz forte que grita meninos
na hora de acordar
ouço o teu abraço, no corredor em gaia
e os olhos molhados pela inusitada despedida

o sol foge
mas o crepúsculo desenha a sombra que
tenho colada aos pés
ou o espelho, coberto com a tua face

pai, digo-te
a minha sombra és tu

Jorge Reis-Sá, “A Palavra no Cimo das Águas”


O meu pai é o pedaço de tempo mais valioso
Mais desmedido. Em todos os recantos de luz sobrevive-lhe
O sorriso, os braços onde o meu próprio tempo se construiu
Paula Rego, "Sem título"


Abortei o teu corpo. Saiu pela uretra, pela garganta, pelos olhos
e por isso o meu ventre vácuo. Ironicamente, não aborto a dor – este mar que explode todos os dias dentro de mim