domingo, 30 de maio de 2010

ouvi-te numa suavidade que não queria tenho a tua voz registada
e queria ouvi-la interminavelmente

Goldfrap - Clowns - Super 8



levar-te a casa noite dentro
saber onde estás

segunda-feira, 24 de maio de 2010

a mulher que acorda doce na tarde
quando partir em viagem tu me dirás
todo esse mundo semântico e solarengo
respiro-te ainda sem convenções mas já não reconheço o teu rosto
tu me dirás
nessa tarde
ninguém imagina o carro que mutila a estrada
a velocidade é sempre a do sangue nas veias
não me «despeço da terra da alegria»
sofro na «terra da alegria»
os acordes da solidão a pró-forma da luz

[estou deitado em casa à procura do que nunca encontro. Fecho os olhos.]

se vieres talvez ainda estarei

quarta-feira, 19 de maio de 2010

miradouro de santa luzia. era o tempo das perfeitas
semelhanças.
o vestido das luzes como um barco que se fazia pássaro
cobra.
não sei como voltar ao gosto próximo do veneno, agora que
somos estranhos estrangeiros na cidade vazia do mar e do
sal.
de que serve este poema se nada dos barcos permanece na
língua?
saberás como podem ser de espadas os versos lançados nas
avenidas
distantes da memória. saberás de jardins onde o mistério
é uma estátua de segredos inacessíveis líquidos como
lábios
de silêncio e de cristal saberás do corpo envelhecido
como folhas crepitando nas palavras perigo como estrelas.
não sabes como é voltar aqui: lugar do crime não sabes
como é voltar aqui:
voltar aqui: lugar do sangue não sabes como é voltar aqui
às colinas onde o sol se espalha e arrefece
voltar aqui como um barco no rio sem velas que não fossem
o plano das viagens tragadas pelo vício de voltar aqui
com o vício de estrangular pelos poemas a cidade que me
cerca.

in Um Barco no Rio
António Carlos Cortez

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Charley Toorop - Toorop, Zelfportret, 1928. Museum Boijmans Van Beuningen
entrei na tua voz corpo que treme no asfalto
corpo que oscila no que não digo
amo-te e não tens face
amo-te e não tens mãos
todos os dias este egoísmo este «bem querer»
todos os dias o indizível no limiar do que existe

domingo, 9 de maio de 2010

Ler Dia do Escritor - Eugénio de Andrade



Finalmente qualquer coisa sobre o Eugénio na Internet.
os teus cabelos compridos cor de terra vermelha a ilha compulsiva que se afasta desta manhã deste continente enevoado de sangue

debruça-te na minha boca esgota-a deposita-me essas tuas imagens de circuncisão

quero-te na minha pele esta noite onda que bate no asfalto em pleno sofrimento

meu amor

para sempre «carros despistados» nos solavancos deste grito

do meu orgasmo dentário desse teu estremecer torrencial de algo indizível

segunda-feira, 3 de maio de 2010

nada me dirás sem que eu te acenda
sem que eu te comece
o orgasmo expressa-se na mais profunda revolta do homem só
sei do passado
vinham as mulheres saídas da fábrica ainda com as suas batas e sonhos refloridos pós-abril
não sei mais nada do que pudesse saber