sábado, 29 de dezembro de 2007

Uma criança irrompe pelo deserto imperfeito das pedras assimétricas. Tem no olhar, para além do sol árduo, a força de quem foge da brevidade da vida. Deve queimar o ar fustigado, a garganta seca de água e amor.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
Kunsthaus Zürich:
Somos o traço flamejante de luz líquida que nos descreve a pele porosa e texturada. A tarde já passou e ainda há-de vir. Haverei de materializar a voz do meu olhar. Perceberás que o amor não se cerra no espaço circular do mundo, que o deserto não é mais do que a escultura transcendente do vazio interior do meu corpo
quarta-feira, 26 de dezembro de 2007
segunda-feira, 24 de dezembro de 2007
É noite de natal e não tenho mais nada para fazer. Pudesse viver perto do mar como o Manel e esticava-me na janela para rever o som oblíquo do mar e ver a magnitude das ondas. Tenho apenas pela janela um horizonte de casas cuja arquitectura não gosto. Enclausuro-me no meu quarto – a janela cerrada. Não pactuo com o Natal, com o seu cinismo religioso e consumista.
Ofereço a mim próprio a imagem desta escultura. Tenho o mote perfeito para me procurar neste mundo de névoa e desconhecimento. Sim, o que constrói também destrói. Não haverá maior ambiguidade do que esta e a vida tão cheia de ambiguidades. E nem preciso de falar do mar, do vento, do fogo ou da terra. Posso dizer revólver. Sonho. Arte. Eu próprio que me destruí no amor e que no amor me reconstruo.
Ouço no sul da casa os convidados que chegam. O jantar deve estar pronto. As crianças gritam os brinquedos de felicidade e plástico. Desconhecem a metáfora dos seus actos nas minhas palavras. Os patriarcas exclamam: - todos para a mesa. Hesito em descer, quero subir as nuvens da última viagem.
domingo, 23 de dezembro de 2007
As janelas que suportam sempre a ventania.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
deus tem que ser substituído rapidamente por poe-
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.
a dor de todas as ruas vazias.
sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.
a dor de todas as ruas vazias.
mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.
a dor de todas as ruas vazias.
pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.
a dor de todas as ruas vazias.
sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.
a dor de todas as ruas vazias.
os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.
a dor de todas as ruas vazias.
Al-Berto Horto de IncêndioAssírio & Alvim3ª edição - Dezembro 2000
Texto sem sentido de amor sentido
O momento é violência, cadência, vento breve, um jardim por florescer. Já não tenho momentos contigo. Só comigo. Fantasmas, homens ensanguentados, mulheres velhas, lobos, pianos é tudo o que tenho. As horas são heresias e o pecado de te amar é omnipresente. Comparo os teus olhos com os cães vadios, as moscas, os latões do lixo, os sacos plásticos, com o mar, sim, com o mar pleno de sonhos. Não há nenhum piano no mar apenas a música espessa das ondas. Beijo-te a boca pelo computador nas imagens que me restam. O ecrã excitado. Preciso do sonho para viver porque preciso de ti e não te tenho. Cataclismos, tempestades abruptas, revoluções, desastres onde a morte me levasse.
Poderá a vida frustrar-me na sua metafísica indecifrável mas enquanto me restar este amor nas veias e no coração em incêndio, enquanto eu acreditar que não estou louco vou sonhar, vou consumir-te o corpo de amor
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
domingo, 16 de dezembro de 2007
terça-feira, 4 de dezembro de 2007
Visp:A noite encerra-me num silêncio desmedido trazido pela montanha. Sem o mar, a uma distância próxima, a minha saliva ondula à procura de barcos que te transportem. Tu não vens, alias, tu nunca vens. Proporcionas-me os rebordos materiais desta espera. São porcelanas e vidros húmidos de líquidos, são pedaços de segundos que engulo no olhar.
Queria que tudo ardesse e até mesmo a neve. Uma avalanche que destruísse a aldeia. Gritos de sofrimento por toda a parte. Para quê a natureza mais incomensurável se tu natureza simples não vens e não me desmoronas no frio desta cama quente. Para quê se tu não vens e não me incendeias de amor. Para quê se tu não vens e não me abres uma montanha no coração
Salvador Dalí, "sonho causado pelo voo de abelha a volta de uma romã um segundo antes de acordar"




