terça-feira, 31 de janeiro de 2012

«e sei que o som da água imita o teu sorriso» disse um poeta que viveu na tua cidade
e que aí vivendo procurou uma mulher chamada Muriel
possivelmente para inventar advérbios estridentes na mecânica da saudade
uma mulher arvorejada penso polposa como as faces das almofadas dos hotéis
em que nunca dormi
e que existiu nos instantes todos da inexistência
pelas palavras dele te vejo
e te poetizo
dentro do meu corpo nas lentes com que sinto o teu corpo
também os pássaros imitam o voo dos teus cabelos

os grandes lagos não têm escapatória
olho-te pela raiz do próprio paradoxo do olhar
presumo qualquer coisa no sabor da tua saliva
na pressão da tua língua na omnipresença dos teus longos cabelos bíblicos
para morrer na ânsia e da ânsia renascer antes da morte
as palavras cara mulher são o esconderijo de algo muito verdadeiro
que sabemos sobre nós próprios
tudo é dizer lentamente o teu nome
as tuas pernas colunárias
os frisos dos teus lábios

que homem posso ser
na solidão deste poema
na buganvília que se abre quando caminhas
e não vens
e vais por esses sítios onde nunca estou
imbuída pela verdade do desencontro
o mar é uma imagem gasta quando passas
a própria noite é um mero rumor do teu sono
que homem posso ser na solidão desta vida
se o poema é perscrutação de que nunca estarás
arredei o teu cabelo das minhas mãos e deixei-me no vento
fui no canto milenar da gravidade
ainda que te veja retumbante no curso dos rios
e deseje o odor dos teus seios
refuto o amor nego a existência desta existência

domingo, 29 de janeiro de 2012

não-inscrição

que rosto terás se nem na luz acredito

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Mais uma pirosada de um ser devido completamente à morte


quando todo o teu tempo é maior que o pensamento

e os veios dos teus cabelos resvalam na cave dos meus pulmões

prescritos de sangue

de novo o brilho do sol antigo sobre o farol de Alexandria

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

“Que o português médio conhece mal a sua terra – inclusive aquela que habita e tem por sua em sentido próprio – é um facto que releva de um mais genérico comportamento nacional, o de viver mais a sua existência do que compreendê-la.”

Eduardo Lourenço. O Labirinto da Saudade, Gradiva, 2005.(http://www.eduardolourenco.com/3_pensamentos/pensamentos.html)


Hoje, dia em que tive o privilégio de conversar pessoalmente com este senhor.
Da necessidade do ridículo no intransigente estado ilusório que é o amor


abres as águas com o hálito dos teus olhos

renitente mulher de carbono

e sim todas as atlântidas

são possíveis