Sim hoje morrerei nesta ataraxia nestas notas musicais geniais e oníricas que me levam para as cabanas da infância e para os momentos em que cru deserto enorme mergulhei no teu corpo à procura de florestas e fontes
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
Terror de te amar num sítio tao frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeiçao
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Antologia
Círculo de Poesia
Moraes Editores
1975
Invento pétalas ondas lilases e fulgurantes
Lugares predispostos a acolher o teu ventre a tua génese
Paraísos de névoa para que seja o teu corpo ainda
Mais pleno
Não temas a insubordinação do mundo
Este barulho de gritos e lágrimas negras
Este holocausto diário e directo
Há um mundo dentro de mim
Só para ti
domingo, 27 de janeiro de 2008
A tarde expande-se pela minha alma e nenhuma outra palavra, para além, de necrotério me ocorre. O sol esburaca, já, os meus poros e quase que sinto a melodia da morte. Vejo a repetição de homens tombados sobre o final. Não é auspicioso o futuro. Preocupa-me a falta de dignidade em vida.
Também eu debaixo da mesa no cochicho do poema. Possivelmente, uma mosca de zumbido alado que atenua o silêncio. O coração foi remexido e toda a casa está desarrumada, os pratos sobre a cama. Pudesse eu, nesta condição de excessivo, materializar os meus sonhos um a um. Tudo seria antagónico - os corpos sobre a mesa.
sábado, 26 de janeiro de 2008
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou gravada a tua mão, e deixo o dia
caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reconhecer
o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.
Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.
Viegas, Francisco José
Meu deus blasfémia encontrar num poema a verdade a essência desta coisa que se apodera e sobrevoar toda esta condição dizer permanentemente mar e fogo algo que se desprende com a noite devanear não entender relembrar apenas os versos possíveis construir uma ponte passar para o outro lado da margem
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
domingo, 20 de janeiro de 2008
meu amor o tempo que dor tremenda pronunciar estas palavras a ultima vez que te vi sobre mim o teu rosto tão inteiro e tão verdadeiro o teu corpo tão quente meu amor desfolho o livro do tempo e relembro estas mesmas palavras quebradas no chão as minhas lágrimas o teu adeus definitivo e lúcido a manhã de Janeiro destruída por um punhal invisível o meu coração que sangra até hoje
sábado, 19 de janeiro de 2008
Num dos pratos o mar, no outro um rio, agora
que o tempo se desossa,
que as pedras
que piso se me enterram na memória e os caminhos
se me aguçam na alma como lâminas, o pão
molhado nas feridas,
o pão
ele próprio já também uma ferida, agora
que o tempo, que já tanto
compararam a um rio, mais
não é do que uma leve exsudação nos muros,
nas mãos, agora
que o céu se encrespa e que pedaços
de mundo arremessados
com toda a força aos olhos revolteiam
na treva antes de se extinguirem,
mais magro do que a neve
caminho, a alma aberta como uma ferida,
ao longo da memória, onde se fundem
o tímpano e a pupila.
Luís Miguel Nava
Vulcão I
Encostamo-nos à nossa casa, pai. Detivemo-nos nas rajadas de sol ambíguas que se aglomeraram na tarde, falamos sobre o futuro e o passado. Eu vi um barco que tu não viste a perpassar, invisível, o tempo. Eu vi os sorrisos dos que partem para sempre. Houve um marinheiro inefável que me acenou. Percebi como estou preso a ti, esta necessidade de regressar sempre a casa, de te dizer, com as lágrimas a cair para dentro
-Olá pai, cheguei
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
Direi, possivelmente, o que já disseram, mas repito-o. Repito-o com as mãos trémulas e hesitantes. Há um céu total que paira sobre nós, uma árvore despida e perdida que se enleia no nosso caminho. Temos o milagre espantoso da natureza todos os dias no epicentro do nosso corpo.
Sei que virá uma manhã, num futuro inquantificável, em que não teremos o milagre da natureza a escorrer pelos nossos olhos. Teremos somente a morte – vazio, escuridão e nada.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
Hoje deparei-me com o céu. Dei-me conta das inimagináveis nuvens recortadas que pairam sobre mim a lembrar-me o quão pequeno eu sou neste lugar a que chamamos, ternamente, mundo.
A natureza é assim mesmo – recôndita e incomensurável. Faz-se esquecer no sorriso do dia e nos entrelaçares de corpos nocturnos.
domingo, 13 de janeiro de 2008

Caímos impiedosos neste defeito maligno e profundamente humano de julgar. Numa tarde qualquer, das que existem pela vontade transcendente, matamos um corpo e selamos-lhe a alma convencidos do heroísmo do acto. O sangue passa a escorrer-nos pela face em vez do suor real. Retornamos à tarde, num pensamento vão, enquanto conduzimos – automáticos - o carro para casa. Lembramo-nos dos olhos e da cor da pele no momento da queda. Sentimos angústia e desolação.
sábado, 12 de janeiro de 2008
Página 334, “Memorial do Convento”, José Saramago
Já guardei o pó do teu corpo na gaveta mais recôndita da casa. Não te respirarei nunca mais
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
às vezes eu penso, ou então não penso.
às vezes cresço por dentro e então digo:
de quem é esta terra mais pequena, aquele
espaço no cabelo mais pequeno tão quando
a tua mão tão na minha? apertá-la é um lugar
muito perto. e digo ainda: quem é a locomotiva
de silêncio? lá fora é dia e a noite é um moinho.
sim, a planta entende as tuas pernas porque canta
nelas. a mão bate na cara, a canção hoje canta!
se alguém me perguntar eu digo que a beleza
é uma garganta toda azul a escorregar no céu.
e falo numa máquina feia de segredar ao ouvido.
quero comer o mar
quero um silêncio assim durante quinhentos poemas
Rui Costa
O sol contíguo espalha a luz pelo poema. Morreremos assim, abertos e largos, na metáfora.
domingo, 6 de janeiro de 2008
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida
Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma
em praças ruas becos boîtes e monumentos
Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote
Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz
Ei-la resplendente de amor teoria
e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone
Ei-la a que fica e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo
Ei-la a cidade prometida
esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor
Daniel Filipe
In: A Invenção do Amor e Outros Poemas
Navarro Vives, AtmosferaUm pássaro desencontra-se com o céu e as casas, afugentadas pela neblina densa, desaparecem no horizonte de mágoa. Duas colunas de água circunscrevem o local. Tudo cheira a maresia e a morte.
A chuva desfaz a minha janela em ruídos.Abro o ficheiro que contém a tua fotografia. Fazes-me companhia enquanto leio os poemas dos meus poetas.





















