quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome na suas curvas claras.

Dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

Eugenio de Andrade - as palavras interditas

Há um incêndio qualquer neste silêncio. A tranquilidade desvaneceu-se. Tudo se tornou irrespirável e doloroso. As gaivotas já não partem do teu coração e já não me trazem a visão benigna e ampla do mar. Os seus voos a pique não circunscrevem o peixe amedrontado. Sou eu, agora, o circunscrito – confinado à implosão interior do sofrimento.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Cig Harvey

Experimenta abrir-me. Verás tudo aquilo que não cabe nos teus sonhos.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Otto Griebel, "A Internacional"


Protesto contra ti mesmo estando apaixonado pela Beatriz Batarda

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Beatriz Batarda em “a Costa dos Murmúrios”

Murmuraste-me âmbar e as palavras luminosas espalharam-se pelo meu rosto simples. Continuei deitado no meu sofá de silêncio amparado pela luz e pelo lugar equidistante que me trazias. Fui também um militar em África – não derrotei o sol. Fui também o teu rosto a lembrar-me outro rosto. Apeteceu-me entrar pelo ecrã e violentamente ser a chuva que te beijou os lábios rugosos. Pudesse eu ter sentido a textura dos teus lábios. Percorreria cada espaço de pele côncava, percorreria cada espaço de pele convexa. Não te perdoo a infidelidade, não pela heresia mas pela promessa que lhe fizeste. Os corpos são promessas.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Promessa

Não cabe mais ninguém nos meus poemas.
Agora serei só eu e as minhas romãs
e os meus mestres espalhados pelos arrozais.
No meu poema só os crisântemos
vestidos de crisântemos
só a sombra dos homens despidos de homens.
Os amantes que fiquem cá fora
nesta casa sem tecto na lama
deste meu corpo.

Catarina Nunes, "Prefloração"

Quando as letras voam as palavras resistem-me apenas na voz. Digo o teu nome vezes sem conta.

Repito-o com o coração a arder

segunda-feira, 19 de novembro de 2007


Hoje não me apetece publicar nada. Apetece-me ficar amparado pela imobilidade da cama. Fechar os olhos bem fundo, reconstruir um mundo onírico onde não se distinga a realidade da imaginação.

Pedro Cabrita Reis, "Longer journeys"

Respiro-te como se de oxigénio se tratasse

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Robert Indiana, "Love"

Dá-me uma proximidade que não tenho. Desconstrói a fome, a sede. Reinventa-me. Refaz-me.
Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos

Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.

Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.

Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a cólera que me leva
aos precipícios de agosto, e a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.
Cada dia é um abismo atómico.

E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Bate em mim cada pancada do pedreiro
que talha no calcário a rosa congenital.
A carne, asfixiam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.


Herberto Helder
Cobra
Poesia Toda
Assírio & Alvim
1979

Também o sofrimento gravado nas mãos de memória foi surreal. Também o mar se despenhou pelos céus e a minha boca silente sem afagos teus

Preenche-me se fores capaz

quarta-feira, 14 de novembro de 2007


Eugénio de Andrade - "As mãos e os frutos"

Este é, para mim, a par com a “Mensagem” o melhor livro da poesia portuguesa.

domingo, 11 de novembro de 2007

"A vida é bela"
Frida kahlo, "As duas Fridas"


Quem sou eu para além desta massa corpórea que come, defeca, urina, dorme e respira? Precisarei, eu, do teu calor, da tua magnitude?

domingo, 4 de novembro de 2007

o sol vai apagar-se e o
universo implodir. só por isso
hesito em escrever poesia, três
minutos antes de a maré encher

deito o corpo, invento asas,
passei a idade de tudo o que
há-de vir

valter hugo mãe

Provavelmente explodiremos e tudo o que se fez poderá nunca ser lembrado. Evitem-se, então, os dramas individuais ou os trágicos sofrimentos. A solução será interpretar à letra a filosofia de vida de Ricardo Reis e no seu epicurismo esperarmos tranquilamente pela morte, pelo fim inevitável.

sábado, 3 de novembro de 2007

André Santos

Nómada ainda e a casa às costas à procura dos frutos e da carne sagrada dos animais. Soube plantar um dia, soube domesticar os animais sagrados e a casa agora estática – sedentário. A casa não suprime necessidades primordiais de vida, é a vagina onde o espaço da alma se propaga.

Claude Monet

Poderia pegar num papel e colocar-te – extravagante - sobre a repetição das ondas ou sobre uma qualquer praia - eloquente - deste Outono. Mas não. Hoje ficarás aqui no imenso pé direito da minha casa. Quero que partilhes comigo a solidão destes dias somados sem resultado final.

Perceberás todo o Inverno em redor de mim.