domingo, 30 de setembro de 2007

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

Cecília Meireles

Tenho-te a dizer destes primeiros dias de Outono. A chuva enrolada no vento como se amantes, fossem. Um frio terno que encolhe os corpos. Alias, todas as pessoas mais pequenas nas ruas desertas de ti. Também, muito frio em mim, nas arestas dos meus lábios. Do vazio já sabes – impertinente e efectivo. Possivelmente, ausência do teu abraço quente, da combustão do teu corpo aberto sobre o meu.
No Outono que é este Outono senti, por que te tenho de dizer, os carros a despenharem-se num abismo e o mar a inverter-se a caminho das fontes. Tenho frio. Metafóricas, estas visões, Meu Amor. Entretanto, diluí o sofrimento num copo de água e não me tenho sentido mal. Apenas frio.
Tenho-te a dizer, por fim, que trinquei o mar e saboreei-te inesperadamente

Quando o sofrimento dos outros nos desperta para o comunismo e consequente revolução.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Os limites já não existem. Os teus beijos extravasaram-nos.

Sinto-os incomensuráveis ainda,

Nos combóios onde viajas nos teus sonhos.

Écloga

Sonhei
contigo embora nenhum sonho
possa ter habitantes, tu a quem chamo
amor, cada ano pudesse trazer
um pouco mais de convicção a
esta palavra. É verdade o sonho
poderá ter feito com que, nesta
rarefacção de ambos, a tua presença se
impusesse - como se cada gesto
do poema te restituísse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus
lábios com o rebordo desta chávena
de café já frio. Então, bebo-o
de um trago o mesmo se pode fazer
ao amor, quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço -
terra, água, nuvens, rios e
o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência
das fontes. É isto, porém, que
faz com que a solidão não seja mais
do que um lugar comum saber
que existes, aí, e estar contigo
mesmo que só o silêncio me
responda quando, uma vez mais
te chamo.

Nuno Júdice

A janela está fechada. A luz não me chega. Derramo todo o meu sangue nas paredes brancas.

A história comovente de dois adolescentes que encontram na auto-mutilação uma solução para a sua intensa dor interior.

Hoje não estou. Amanhã não estarei. Ontem não estive.

Fechei para obras.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Roubei esta fotografia ao Manel. Queria dizer-lhe como o invejo por ter vista para o mar.
Van Gogh, "Jardim dos poetas"

Como Inumano tenho vista privilegiada para o jardim onde a Sophia, o Eugénio, o Ruy Belo, o Fernando Pessoa, o Alexandre O’Neill, o António Gedeão, o Miguel Torga, o Ary dos Santos, conversam ao final da tarde.

Pontualmente, um grupo de amigos organizam um jantar onde, cada um, convida a personagem mais palerma que conheceu no decorrer da semana.


"Jantar de palermas" é um filme para nunca mais esquecer.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

O Olhar

olha para mim
nos olhos
agora

olha para mim
sereno
olhar

anda ver aqui
nos olhos
o mar

olha para mim
com o teu
olhar

vem partir na sensação
de que vamos viajar
só nós dois na ilusão
de tanto amar
vem daí com a tua mão
que eu quero acarinhar
vem contar-me essa visão
do teu olhar

Pedro Ayres Magalhães, Madredeus.


Houve um tempo em que todos os segundos procuravam os vestígios dos teus passos. Percebi, mais tarde, que quem caminha no mar não deixa rastro.
Aglomerei forças e caminhei até à água. Encostei o ouvido à vibração das ondas e tentei encontrar no turbilhão de barulhos a tua pulsação. Ineficientes estes meus sentidos.

- Porque esta canção tem em cada curva o espelho do que sofri.
Todas as ditaduras, quer sejam de direita ou de esquerda ou da puta que as pariu, são um tremendo erro. Peço desculpa pelo palavrão mas em situações destas, terminologia específica justifica-se.

“Antes que anoiteça” conta a história de um poeta cubano vitima de todo um regime não conivente com a libertação sexual e intelectual do ser humano.

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

Alexandre O’Neill

Digo-te: - todos os corpos de mulher são evanescentes mas só no teu eu me vejo espelhado por dentro.
Salvador Dalí, "Persistência da memória".
A memória persiste ou persiste a memória. Onde ficámos?


Todos nós precisamos de nos rever. A sociedade precisa de se rever. Será tudo o que posso dizer.

“Fala com ela”, é um filme com um argumento e com uma qualidade fotográfica acima do normal.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Este homem que pensou
com uma pedra na mão
transformá-la num pão
transformá-la num beijo

Este homem que parou
no meio da sua vida
e se sentiu mais leve
que a sua própria sombra

António Ramos Rosa

A noite estendeu-se e perseguimos o momento incontestável da alegria. A noite amena prenunciava a chegada do esperado Outono. Ainda não tinham começado a cair as folhas mas já começavam a cair as palavras.
Num impulso, sentados num bar enfrente ao mar, começamos a voar. Nova Iorque, Madrid, Paris, Rio de Janeiro, Amesterdão, Los Angeles, Bucareste não nos bastaram. A condição humana, as guerras fratricidas e a nossa própria condição sobrepuseram-se. Houve quem falasse da ausência, da falta de cobertores num Inverno tão grande que durou toda a vida. Houve, também, quem dissesse do silêncio…das suas arestas. No fim, soletramos a palavra amigo e regressamos a casa.
- Sei que pararemos no meio da nossa vida e nos sentiremos mais leves do que a nossa própria sombra.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Assumo a minha ignorância no que concerne ao cinema português. No entanto, para mim, este é o melhor filme português que vi.
Inspirado no livro já aqui falado, Alvorada em Abril, a história centra-se num dos maiores heróis da história portuguesa ,apesar de muito pouco reconhecido, Salgueiro Maia.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Primeiramente

Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus.

E é assim que a noite chega, e dentro dela te procuro, encostado ao teu nome, pelas ruas álgidas onde tu não passas, a solidão aberta nos dedos como um cravo.

Meu Amor, amor duma breve madrugada de bandeiras, arranco a tua boca da minha e desfolho-a lentamente, até que outra boca – e sempre a tua boca - comece de novo a nascer da minha boca.

Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos pássaros, encostar a face ao rosto lunar dos bêbedos e perguntar o que aconteceu.

Eugénio de Andrade, Palavras Interditas

Relembro a tua voz extensa a pronunciar cada uma destas palavras. Serena, o cabelo a ser embalado pelo vento ocasional. Por vezes o vento ininterrupto. Palavras juntamente com as pétalas por toda a parte.
Houve um dia, que até o mar se abriu. As palavras de repente transformadas em peixes. Mágicas metamorfoses tuas.
Mas o tempo das palavras acabou. De pronto, também as tardes se extinguiram. Solidão e noite emergiram nas linhas que definem a minha sina - esperar pela morte.

O 25 de Abril narrado por um dos homens mais importantes da revolução - Otelo Saraiva de Carvalho.

Para quem ainda se comove com todo o altruísmo dos militares de Abril, para quem lhes reserva ainda um pensamento de gratidão pela liberdade das gerações vindouras, este livro é obrigatório.

Um livro essencial para que se perceba a diferença entre golpe de estado e revolução.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Descrição de um momento infeliz.

Por ecos voláteis e por algumas luzes que se parecem com Deus, acabamos por esquecer o passado, muitas vezes o presente. De repente, porque, efectivamente, nos fizeram rumo à infelicidade, caímos outra vez na realidade. As luzes já não se parecem com Deus e os ecos passam a palavras que queimam como o fogo.

Digo-vos não consigo escolher um poema.
Porque o Manel, um amigo humano, me emprestou. Tive, então, que ler este romance brasileiro de “bichos soltos” e “favelas”.


Um livro interessantíssimo, onde se pode retirar importantes reflexões sociológicas.
Desfecho

Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te...
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte.)

Fosse qual fosse o chão da caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente
Do teu vulto calado
E paciente...

E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a solidão.
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tu não usas,
Sempre silencioso na agressão.

Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amargo do que te dizia...
Agora somos dois obstinados,
mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.

Miguel Torga, Câmara Ardente, Coimbra Ed.


Porque ontem, num café recôndito de uma cidade apenas com estrelas, discuti Deus. Não concordaram. Retorquiram-me com palavras como fé e acreditar. Deus é um nome fácil para tudo aquilo que não conseguimos explicar – é tudo o que penso.


É, realmente, difícil acreditar, lembrando uma famosa citação de Einstein, que um homem como Ghandi tenha pisado a Terra.


Neste filme temos a lição de um homem que acima de todas as coisas foi altruísta e depois incorruptível.

domingo, 16 de setembro de 2007

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Poderíamos discutir toda a ambiguidade que a complexidade do tema Amor nos abre. Mas não me aptece ser erudito quando, apenas, a simplicidade dos teus cabelos me apetece.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

“A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. Mais tarde a obra de outros artistas veio confirmar a objectividade do meu próprio olhar. Em Homero reconheci essa felicidade nua e inteira, esse esplendor das coisas. E também a reconheci, intensa, atenta e acesa na pintura de Amadeu de Sousa Cardoso. Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.
Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito da verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor.
E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia. E a busca da justiça é desde sempre uma coordenada fundamental de toda a obra poética. Vemos que no teatro grego o tema da justiça é a própria respiração das palavras. Diz o coro de Esquilo: “Nenhuma muralha defenderá aquele que, embriagado com a sua riqueza derruba o altar sagrado da justiça”. Pois a justiça se confunde com aquele equilíbrio das coisas, com aquela ordem do mundo onde o poeta quer integrar o seu canto. Confunde-se com aquele amor que, segundo Dante, move o sol e os outros astros. Confunde-se com a nossa confiança na evolução do homem, confunde-se com a nossa fé no universo. Se em frente do esplendor do mundo nos alegrarmos com paixão também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão. Essa lógica é íntima, interior, consequente consigo própria, necessária, fiel a si mesma. O facto de sermos feitos de louvor e protesto testemunha a unidade da nossa consciência.
A moral do poema não depende de nenhum código, de nenhuma lei, de nenhum programa que lhe seja exterior, mas, porque é uma realidade vivida integra-se no tempo vivido. E o tempo em que vivemos é o tempo duma profunda tomada de consciência. Depois de tantos séculos de pecado burguês a nossa época rejeita a herança do pecado organizado. Não aceitamos a fatalidade do mal. Como Antígona a poesia do nosso tempo diz: “Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres”. Há um desejo de rigor e de verdade que é intrínseco à íntima estrutura do poema e que não pode aceitar uma ordem falsa.
O artista não é, nem nunca foi, um homem isolado que vive no alto duma torre de marfim. O artista, mesmo aquele que mais se coloca à margem da convivência, influenciará necessariamente, através da sua obra, a vida e o destino dos outros. Mesmo que o artista escolha o isolamento como melhor condição de trabalho e criação, pelo simples facto de fazer uma obra de rigor, de verdade e de consciência ele irá contribuir para a formação duma consciência comum. Mesmo que fale somente de pedras ou de brisas a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: Que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser. (…)“

Sophia de Mello-Breyner Andresen - “Posfácio”, Livro Sexto, Lisboa, Moraes Ed., 1976, pp.75-77
Palmilhei as horas devagar
na romagem da cal e da memória.

Escrevi-me no pretérito imperfeito
e inscrevi os olhos em becos e recantos
onde os nomes, marcados para sempre.

Depois, senti o passado perpassar
longe
e tão perto
que pude ver meus versos
com ele, e nele, a caminhar.

Luísa Freire, Ciclo da Cal

Muito mais de que um romance neo-realista publicado em 1958, o livro de Manuel da Fonseca é uma crítica profunda à miséria social vivida no Estado Novo.

O Retrato Social parece-nos tão real que em determinados momentos conseguimos sentir o desespero, a fome e a dor.

"Mar adentro, mar adentro, mar adentro"
Temas como a poesia e a eutanásia misturam-se num filme demasiado tocante e intesnso.
Javier Bardem tem mais uma vez um desempenho extraordinário.

(à minha mãe)

No ar ficou o verde dos teus olhos
Esse pudor tão teu
De ser parte do mundo.
De entrar nas casas, de atravessar as ruas
De trocar as palavras que eram tuas
Pelas palavras de todos os outros.
Luz frágil de uma vela
Iluminando outro tempo, outras eras
Quando calar era como uma renda
Tecida no calor do peito das mulheres.
Amaste assim
Como uma pena de ave
Na constante recusa de mudar
Fria de mãos e braços
Mas fonte de doçura no sorriso
Que sempre foi o teu modo de abraçar.

Isabel Fraga, Pátio Interior


Porque há mães que amam os seus filhos incomensuravelmente
Porque há mães que destróem os órgãos dos seus filhos contras as esquinas
Ou na sombra lhes criam ainda uma sombra maior

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Olá.

Tem que haver um inicio. Explicar porquê. Para quê.

Sou um inumano. Não há muito mais a dizer, infelizmente.
Talvez possa dizer que consigo ver o mar daqui.

Um dia disse: a poesia é a unica forma de me reencontrar contigo.
Aqui estou eu.