terça-feira, 18 de dezembro de 2007

notas para o diário

deus tem que ser substituído rapidamente por poe-
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.

é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.

Al-Berto Horto de IncêndioAssírio & Alvim3ª edição - Dezembro 2000

Texto sem sentido de amor sentido

O momento é violência, cadência, vento breve, um jardim por florescer. Já não tenho momentos contigo. Só comigo. Fantasmas, homens ensanguentados, mulheres velhas, lobos, pianos é tudo o que tenho. As horas são heresias e o pecado de te amar é omnipresente. Comparo os teus olhos com os cães vadios, as moscas, os latões do lixo, os sacos plásticos, com o mar, sim, com o mar pleno de sonhos. Não há nenhum piano no mar apenas a música espessa das ondas. Beijo-te a boca pelo computador nas imagens que me restam. O ecrã excitado. Preciso do sonho para viver porque preciso de ti e não te tenho. Cataclismos, tempestades abruptas, revoluções, desastres onde a morte me levasse.

Poderá a vida frustrar-me na sua metafísica indecifrável mas enquanto me restar este amor nas veias e no coração em incêndio, enquanto eu acreditar que não estou louco vou sonhar, vou consumir-te o corpo de amor

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