segunda-feira, 24 de dezembro de 2007


Fernanda Fragateiro, Against the wall

É noite de natal e não tenho mais nada para fazer. Pudesse viver perto do mar como o Manel e esticava-me na janela para rever o som oblíquo do mar e ver a magnitude das ondas. Tenho apenas pela janela um horizonte de casas cuja arquitectura não gosto. Enclausuro-me no meu quarto – a janela cerrada. Não pactuo com o Natal, com o seu cinismo religioso e consumista.
Ofereço a mim próprio a imagem desta escultura. Tenho o mote perfeito para me procurar neste mundo de névoa e desconhecimento. Sim, o que constrói também destrói. Não haverá maior ambiguidade do que esta e a vida tão cheia de ambiguidades. E nem preciso de falar do mar, do vento, do fogo ou da terra. Posso dizer revólver. Sonho. Arte. Eu próprio que me destruí no amor e que no amor me reconstruo.
Ouço no sul da casa os convidados que chegam. O jantar deve estar pronto. As crianças gritam os brinquedos de felicidade e plástico. Desconhecem a metáfora dos seus actos nas minhas palavras. Os patriarcas exclamam: - todos para a mesa. Hesito em descer, quero subir as nuvens da última viagem.

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