quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Vestígios


noutros tempos

quando acreditávamos na existência da lua

foi-nos possível escrever poemas e

envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído

pelas salivas proibidas - noutros tempos

os dias corriam com a água e limpavam

os líquenes das imundas máscaras



hoje

nenhuma palavra pode ser escrita

nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras

ou se expande pelo corpo estendido

no quarto do zinabre e do álcool - pernoita-se



onde se pode - num vocabulário reduzido e

obcessivo - até que o relâmpago fulmine a língua

e nada mais se consiga ouvir



apesar de tudo

continuamos e repetir os gestos e a beber

a serenidade da seiva - vamos pela febre

dos cedros acima - até que tocamos o místico

arbusto estelar

e

o mistério da luz fustiga-nos os olhos

numa euforia torrencial


Al-Berto
Horto de Incêndio


Foram fogo, para mim, as tuas palavras. Fonte de luz, em suma.
Hoje, sem a tua luz, sou um necrotério. Tu sabes. Sentes o cheiro das coisas mortas.

1 comentário:

NM disse...

Inumano... (Que não vou desmascarar!)
Foi com grande prazer que devorei o teu blogue... Só a luxuriante entrada de Al Berto já conquista.
E para quem te vê todos os dias não é uma surpresa total descobrir este blogue!
É mais um de visita diária obrigatória...
Quando te apetecer passa pelo meu blogue... Muito mais kitsch e simples que este mas pronto... MEU!

Até amanhã...