segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Agora é diferente
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro

Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor

Já não arranjamos vagar
para o amor agora
isto vai devagar
isto agora demora

Manuel António Pina
Poesia Reunida


Versos do olhar de um idoso para a sua mulher

Não te vejo a libido de outrora. Não sinto a detonação do mar, do vento, da própria terra em ascensão. O meu pénis levitava e éramos, banalmente, um só. A tua boca tinha estrelas e no teu rosto pleno encontrava o céu – primazia de luz. No inverno guardava-te a mão ao frio e o gelo era o motivo perfeito para, na demora do acordar, confrontar o meu perfil com o teu.

Fomos, assim, alados pelo fio que nos puxa para o tempo em sucessão. Hoje permaneço no teu corpo em maior sossego. Não te digo palavras de amor. Tu, também, já não precisas. Basta-nos a simplicidade de no horizonte do olhar nos encontrarmos um ao outro.

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