sábado, 20 de outubro de 2007

Cresci numa casa deserta de riquezas e comodidades. Cómodos simples ajustados ao tamanho das minhas pernas mas não às enormes pernas do meu irmão ou ao coração ainda maior do meu pai. As paredes sem cor revelavam já, desde aquele tempo, o cinzento que predomina ainda hoje dentro de mim. Havia uma coisa invulgar e antagónica a toda a realidade. Uma vista privilegiada, por ordem lógica, para um aglomerado de casas e depois para o horizonte. Cresci a ver o sol levantar-se e pôr-se sobre as casas. Se fechar os olhos consigo recordar cada pormenor.
Um dia mudei-me para uma casa maior. Grande, enorme mas não pude trazer o horizonte comigo. Pensei que tudo tinha ficado na mesma. Tinha casa e não tinha horizonte. A pobreza continuava a mesma. Ser rico significava ter tudo.
De repente, na celeridade dos solstícios que não via, as pernas cresceram, os braços cresceram, a boca sentiu necessidades de amor e com todas estas mudanças a perspectiva do olhar mudou. Comecei a sentir-me insuficiente. O horizonte do meu corpo não tinha a dimensão do horizonte da minha casa pobre.
Comecei, lentamente e progressivamente, a observar a sociedade em que me inseria. Fui ganhando consciência de como tudo se processa. Descobri o significado de socialismo e de capitalismo, mais tarde de Marxismo. Entre conhecimentos e conhecimentos aprendidos no auto-didactismo e na teoria dos cursos inventados para alienar, descobri uma certeza, para já inabalável, de que a salvação da civilização humana está numa educação para o altruísmo.
Deveria ser astuto e procurar a estabilidade, a resignação, a estagnação. No entanto, há uma raiz daquele horizonte que prolifera dentro de mim. Luto todos os dias contra mim próprio, contra aqueles que são os meus instintos básicos e também, porque sou filho de uma cultura, contra a minha própria educação. Não me posso corromper, não posso virar costas a uma sociedade que por legado também é minha. Sinto, conscientemente, que não tenho a força necessária para a transformar.
Peço desculpa mas esta analepse é necessária. Numa aula qualquer de Liceu vi um filme cujo nome não me lembro. Sei que contava a história de um homem que plantava árvores numa zona árida, quase como se fosse um deserto. A glória do seu gesto, da sua persistência, da sua convicção repercutiram-se num jardim único onde a vida e a harmonia reinavam.
Todos os dias, contrariando a lógica, contrariando a minha própria consciência, tento semear nos meus alunos o altruísmo para que um dia o mundo seja um jardim de seres humanos e na harmonia do respeito pelas liberdades fundamentais possamos viver de um forma, efectivamente, digna.