Primeiramente
Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus.
E é assim que a noite chega, e dentro dela te procuro, encostado ao teu nome, pelas ruas álgidas onde tu não passas, a solidão aberta nos dedos como um cravo.
Meu Amor, amor duma breve madrugada de bandeiras, arranco a tua boca da minha e desfolho-a lentamente, até que outra boca – e sempre a tua boca - comece de novo a nascer da minha boca.
Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos pássaros, encostar a face ao rosto lunar dos bêbedos e perguntar o que aconteceu.
Eugénio de Andrade, Palavras Interditas
Relembro a tua voz extensa a pronunciar cada uma destas palavras. Serena, o cabelo a ser embalado pelo vento ocasional. Por vezes o vento ininterrupto. Palavras juntamente com as pétalas por toda a parte.
Houve um dia, que até o mar se abriu. As palavras de repente transformadas em peixes. Mágicas metamorfoses tuas.
Mas o tempo das palavras acabou. De pronto, também as tardes se extinguiram. Solidão e noite emergiram nas linhas que definem a minha sina - esperar pela morte.
Sem comentários:
Enviar um comentário