terça-feira, 18 de setembro de 2007

Primeiramente

Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus.

E é assim que a noite chega, e dentro dela te procuro, encostado ao teu nome, pelas ruas álgidas onde tu não passas, a solidão aberta nos dedos como um cravo.

Meu Amor, amor duma breve madrugada de bandeiras, arranco a tua boca da minha e desfolho-a lentamente, até que outra boca – e sempre a tua boca - comece de novo a nascer da minha boca.

Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos pássaros, encostar a face ao rosto lunar dos bêbedos e perguntar o que aconteceu.

Eugénio de Andrade, Palavras Interditas

Relembro a tua voz extensa a pronunciar cada uma destas palavras. Serena, o cabelo a ser embalado pelo vento ocasional. Por vezes o vento ininterrupto. Palavras juntamente com as pétalas por toda a parte.
Houve um dia, que até o mar se abriu. As palavras de repente transformadas em peixes. Mágicas metamorfoses tuas.
Mas o tempo das palavras acabou. De pronto, também as tardes se extinguiram. Solidão e noite emergiram nas linhas que definem a minha sina - esperar pela morte.

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