Poema a Muriel anos depois
morto está o teu admirador morreu no ano de 1976 penso
e fez questão de te deixar em palavras circuncidas a fogo
para que eu as lesse no silêncio meteórico deste sábado à noite
onde a solidão antes de mais é uma escolha ponderada
habitaste as ruas de Madrid
assim me vens na releitura fantasmagórica da imaginação
habitaste o coração de um homem claramente só e à procura
de uma extensão de sofrimento
terás sabido pergunto todos estes anos depois
terás sabido que habitaste porventura os desejos de um homem que escrevia poemas
que mergulhou no mar e cortou roseiras com os seus dentes cor de luz
que ante o poema pensou no teu rosto para dizer «duvidarei se tu estiveste onde estiveste»
ou foste tu apenas uma correspondência semiótica
de um amor ainda mais antigo
de alguém que quis ele ver em Madrid e nunca viu
Muriel,
se és real renegada foste com tempos perfeitos
e se não exististe com pulmões e brônquios
oscilas os corações no tempo intemporal de todos os homens do presente
dos homens que como eu vivem em 2010 e lêem ruy de moura belo
quando o sofrimento agudiza
escritor português nascido em Rio Maior
se não exististe existes
e contigo todos caminhámos os pássaros da inexactidão
contigo vamos aludindo as vozes desgarradas do ódio
tu «que alagas de luz todos os olhos»
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