quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome na suas curvas claras.

Dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

Eugenio de Andrade - as palavras interditas

Há um incêndio qualquer neste silêncio. A tranquilidade desvaneceu-se. Tudo se tornou irrespirável e doloroso. As gaivotas já não partem do teu coração e já não me trazem a visão benigna e ampla do mar. Os seus voos a pique não circunscrevem o peixe amedrontado. Sou eu, agora, o circunscrito – confinado à implosão interior do sofrimento.

Sem comentários: