Entre desespero ou angústia
(Metz)
quem és tu a descer todas as avenidas na cidade sem avenidas
quem és tu respirando o carvão esgotado de todas as imagens poéticas
homem que levanta cadeiras e circuncisa prateleiras
homem desvairado pelas grandes rampas das montanhas
são tantas as paredes o sargaço no recoser das mãos
uma loucura tão competente que chega a ser lucidez
tudo falta cumprir
bem o sabes
bem o sabemos
abro tantas vezes as portas sempre que as fecho
tudo se inunda
os grandes discursos das grandes vozes dos grandes homens da grande civilização
há um homem só em todos os homens sós
as derradeiras certezas sobre tudo os últimos gritos da profícua sabedoria
os computadores da certeza as enormíssimas máquinas de calcular os potentíssimos mísseis
grandes caterpílares complexos industriais de tecnologia de ponta
o azoto é respirado pelo homem de angustia que cruza a vagina de água no limiar da terra
esse homem confidencial que habita o término de nós mesmos
e às vezes penso a cerca dos macroconceitos
em ultima instância somos escravos da vida
em última instância nunca nos despiremos da infelicidade que nos perfaz
o medo tal como dizem os poetas da suprema razão é a nossa unidade crucial
morramos então na paz do senhor na paz das ondas ordenadas na seiva do grande racionalismo
um suicídio colectivo
esse dia
da grande vontade colectiva do enorme reconhecimento da evidência
toda a humanidade disposta a disparar sobre si mesma
a infringir-se à morte
para que o mundo vazio
se regozije da morte do tempo da morte da palavra
e a paz provenha
no sulco de todas as árvores do mundo
no latir de todos os cães de companhia no ronronar dos gatos
nas viagens das grandes baleias
na humidade do musgo
o silencio realmente silente no espaço aberto desse último poema
para todo o sempre
Sem comentários:
Enviar um comentário