«- Vou-me embora. Nunca mais tornarás a ver-me. Acabou-se, percebes?
O homem afastou-lhe a mão, quis dizer qualquer coisa, mas naquele momento aproximou-se o escanção.
Então o homem interrompeu-se, com movimentos desajeitados arrastou a sua cadeira até a colocar junto à dela e ordenou ao escanção que servisse.
A garrafa ergueu-se, inclinou-se ao chegar à altura própria e o jorro de sidra descreveu o arco dourado em busca da boca sedenta do copo.
- Estás a vê-lo? – perguntou o homem.
- Que queres tu que eu veja? Por amor de Deus, que queres tu que eu veja?
- Outro, se faz favor.
O escanção recebeu o copo e apressou-se a executar novamente o seu ritual.
O homem pôs um braço sobre os ombros da mulher e, no instante em que o jorro voava, apontou para um ponto invisível debaixo do arco de sidra.
- Estás a vê-lo? Lá, como nas histórias. Atravessando o arco da entrada do templo do sonhos, lá, lá está o mar.»
Luís Sepúlveda, “Encontro de amor num país em guerra” – Formas de ver o mar
Sem comentários:
Enviar um comentário