quarta-feira, 19 de maio de 2010

miradouro de santa luzia. era o tempo das perfeitas
semelhanças.
o vestido das luzes como um barco que se fazia pássaro
cobra.
não sei como voltar ao gosto próximo do veneno, agora que
somos estranhos estrangeiros na cidade vazia do mar e do
sal.
de que serve este poema se nada dos barcos permanece na
língua?
saberás como podem ser de espadas os versos lançados nas
avenidas
distantes da memória. saberás de jardins onde o mistério
é uma estátua de segredos inacessíveis líquidos como
lábios
de silêncio e de cristal saberás do corpo envelhecido
como folhas crepitando nas palavras perigo como estrelas.
não sabes como é voltar aqui: lugar do crime não sabes
como é voltar aqui:
voltar aqui: lugar do sangue não sabes como é voltar aqui
às colinas onde o sol se espalha e arrefece
voltar aqui como um barco no rio sem velas que não fossem
o plano das viagens tragadas pelo vício de voltar aqui
com o vício de estrangular pelos poemas a cidade que me
cerca.

in Um Barco no Rio
António Carlos Cortez

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